terça-feira, 4 de setembro de 2012

Eu lembro-me, todos os dias

Olá, sou eu. Sim, sou eu. Não sei se te lembras. Se te recordas. Mas eu recordo-me sabias? Todos os dias. Sou eu, sim, sou eu. Eu, que deixaste. Eu, que magoaste. Eu, que abandonaste. Sou eu, simplesmente eu. Só eu. Mas sabes, já não sou a mesma. Sabes disso, não sabes? Sabes que cresci? Que mudei? Que amadureci? Acho que sabes. Apesar de tudo, conhecias-me. Ou talvez não. Talvez nunca me tenhas conhecido como eu julgava que conhecia. Conhecias? Gostava de saber que sim, talvez isso ajudasse ao buraco que tenho, um buraco que deixaste, um buraco que ninguém repara. Talvez quando olhas para os meus olhos, vês o castanho-escuro que eles contêm. Só isso. Não sei se ainda tens a capacidade de identificar a verdade por detrás da sua cor. A dor. A mágoa de te ver partir desta forma. Não sei se algum dia soubeste. Não sei, não sei. É difícil. Isto tudo. Esta situação. Este cenário. Consome-me. Eu mudei. E tu? Mudaste? Eu não sei. Não consigo entender. Não consigo ver isso. Magoa-me, desculpa, é verdade. Desculpa se sou fraca. Desculpa se não consigo. Desculpa. Perdoa-me. Eu acho que mudaste. Para pior talvez. Ou talvez, esse ‘pior’ seja apenas uma máscara. Talvez estejas a esconder tudo o que sentias, de mim. De mim. Que te vi tudo. Que olhava nos teus olhos e descobria a verdade. De mim. Para a qual não tinhas segredos. Se calhar voltaste a refugiar-te no teu muro. Um muro que me afasta de ti, de uma maneira parva. Mas ela afasta. Esse muro, já não era barreira para nós. Mas agora é. Será isso? É apenas um meio de defesa? Ou és realmente isso? Eu não sei. Tornaste-te nisto que vejo? Neste ser sem fundo? Sem calor? Sem emoção? Não, calma. Emoção, essa tu tens. Eu sei que sim. Por mais que mudes, eu conheço-te. Melhor que muitos. Deixaste penetrar demasiado em ti, para não te conhecer melhor do que conheço a mim mesma. Vi demasiada dor nos teus olhos, para a deixar de reconhecer assim. Vi demasiada culpa, para a esquecer desta maneira. Culpa. Que palavra. Tu sente-la? Talvez sintas. Não sei. A culpa foi tua? Sim, muito provavelmente. E desculpa por isto. Desculpa por te culpar. Desculpa por te fazer isto. Desculpa por não ser forte para ultrapassar isto. Eu recordo-me, sabes? Todos os dias da minha vida desde que partiste. Mas não choro. Não, isso não. Já não consigo. Porque o vazio é tão fundo, que nem água tem. Está seco, essa parte de mim, sem vida, sem emoção, essa parte grita por tudo que voltes mas tu não voltas. Tu não vais voltar. Jamais. Eu sei. E tento convencer essa parte de mim. Não consigo. Mais uma vez, desculpa. Mais uma vez, perdoa-me. Porque eu estou a tentar ser forte, como me ensinaste. Porque sim, tu não me deste só dor. Aprendi muito contigo. Será que aprendeste alguma coisa comigo? Eu não sei. Já poucas coisas são as que sei sobre ti. Acima de tudo, eu quero que sejas feliz. E desculpa-me, por não te conseguir perdoar.

O mar é fiel 6*

Sinto o fresco da água oxigenada nas feridas da minha perna. Sabe tão bem. Ainda arde, um pouco, mas está a passar. Aquele estranho, seja lá quem for, levou mesmo muito a sério os meus ferimentos e decidiu, que como eu não ia ao hospital, ele iria ser o meu médico. 
- És a minha pequena cobaia- disse, com um sorriso na voz. E começou a cuidar de mim. Soube bem. Há muito que alguém não me fazia isto. Sinto-me como se tivesse outra vez 4 anos e tivesse caído enquanto brincava no parque. 
Agora, já tinha as pernas com o curativo e a minha mão com uma ligadura. Ele insistiu em por uma, apesar dos meus protestos. Estou sentada, a um canto do café, que está praticamente vazio. São 4h37 da manhã.
- Toma, mete lá isto na cabeça.
Dá-me o gelo mas ao pegar nele, a minha mão treme descontroladamente. Estou tão fraca. Ele suspira e senta-se na cadeira ao lado da minha.
- Deixa, eu faço isso.
Com um gesto delicado, afasta as madeixas do meu cabelo e mete o gelo no galo. Sabe bem e solto um gemido de alívio.
- Amanhã há meia noite, o galo vai cantar.
- Ah Ah Ah, que engraçadinho.
Ele ri-se e eu riu-me com ele, o que faz a minha cabeça doer ainda mais. Calamos-nos outra vez, enquanto esperamos pelo nosso pedido. O senhor do café, um velho rezingão, não gostou muito quando apareceram mais duas criaturas para lhe aumentar a estadia ali, quando ele já estava a mandar todos embora. Mas, como ele me conhecia desde bebé e eu me estava mesmo muito mal, ele lá acedeu e foi buscar a caixa de primeiros socorros.
- Posso saber como te chamas? - digo. Estou farta de lhe chamar 'estranho' na minha cabeça.
- Frederico e tu? - adoro a voz dele, tão doce, tão calma. Parece a voz do mar.
Ia-lhe responder mas aí chega o nosso pedido.
- Está aqui o pedido - resmunga. Obviamente que pensava puder fechar o bar mais cedo, mas a nossa chegada impediu-o.
- Obrigada... - balbucio e afasto-me ligeiramente do Frederico de modo a conseguir comer. Ele pousa o gelo na mesa e fica a observar-me. 
Pego em metade da tosta e levo-a à boca. Nunca na minha vida uma tosta soube-me tão bem. Mastigo como se nunca tivesse comido nada na minha vida.
- Bem me parecia que estavas com fome - diz, boquiaberto.
Rio-me, o que acaba comigo a cuspir tosta por tudo o que é sítio. Ele também se ri, e a sua gargalhada é tão contagiante, que eu ainda me rio mais. Quando foi a última vez que me ri assim?
Passado um bocado, conseguimos parar de rir. Tenho que respirar profundamente várias vezes antes de voltar a comer, para não haver mais acidentes. Levo mais tosta à boca e continuo a mastigar.
- Bem, acho que já fiquei sujo de tudo menos de tosta... - e começa a tirar os pedaços da camisola de mangas cavas.
- Vai uma dentada? Deves ter fome..
- Não, sabes, enquanto tu andavas a fazer de Indiana Jones versão feminina, eu estava a jantar.
- Parvo - e continuo a comer.
Quando termino, afasto o prato de mim.
- Já posso ir para casa, senhor Frederico?
- Só se me deixares levar-te.
Quero dizer que não. Que já estou bem. Que não é preciso. Mas a presença daquele ser exótico, mexe comigo. E faz-me esquecer a promessa que fiz a mim mesma. A promessa de nunca levar ninguém a minha casa.
- Pronto, acho que pode ser.
Ele sorri, o que torna o seu rosto ainda mais bonito. 
- A sério que isso te faz assim tão feliz?
Ele não responde. Vai até ao balcão e, visto que eu não tenho dinheiro nenhum, ele paga. O velho senhor parece verdadeiramente contente por ver que nos vamos embora.
Anda - diz, e dá-me a mão.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Tenho 10 anos e (...)

Já sei o que é que a palavra custódia quer dizer: significa quem vai ficar a tomar conta de mim. Fiquei com a minha mãe, pois o meu pai não tinha condições, assim o disseram. Tenho muitas saudades dele. Só passo dois fins-de-semana com ele, por mês. Não chega. Sinto falta das suas brincadeiras, do seu olhar traquina. De como ele me ajudava com os trabalhos de casa. A minha mãe é muito boa, mas não tem tanta paciência como o meu pai.
Oiço o toque de final de aulas.
- Anda Olívia, a minha mãe quer falar com a tua, logo podemos ficar a brincar.
É verdade. Quando chegamos ao portão, as nossas mães estão juntas a falar. Pomos a mala no banco onde estão sentadas e vamos para a nossa árvore. Subimos para um ramo, e senta-mo-nos, um ao lado do outro. O Jaime entende que estou triste.
- Anda lá Olívia, tens que te animar.
- Eu só queria vê-lo Jaime.
- Vais vê-lo, não vais passar o fim-de-semana a casa dele?
Abano a cabeça, dizendo que sim. Não quero falar.
- Então tens que te animar.
Chegasse ao pé de mim e põe um braço ao redor dos meus ombros.
- Eu estou sempre aqui, sabes disso não sabes?
- Sei..
Chega a cara mais contra a minha e dá-me um beijinho na boca. 
- Sempre.
- Sempre.