domingo, 15 de abril de 2012

Mitos e lendas, histórias e contos

Existem mitos e lendas, histórias e contos. Onde começaram? Por quem? Quando? Ninguém sabe, é um dos imensos mistérios do mundo. Elas perdem-se com o vento, voam para longe com ele, instalam-se em cidades e vilas, pequenas aldeias até. Rondam durante o dia, espreitam por entre as praças cheias de pessoas, seguem por entre as árvores, escutando as suas novidades, misturam-se com as gotas de orvalho, com as gotas da chuva para depois se reflectirem nas poças de água que pisamos. Acrescentam pontos a si mesmas, enquanto o sol jaz bem lá no topo do céu, vão buscar pormenores, a cada canto e recanto, cada casa, cada divisão, cada sitio, crescendo e crescendo, aumentando a cada instante. E à noite, quando a lua ilumina o céu, quando as estrelas espreitam por entre as nuvens, elas aparecem, vem calmas por entre a bruma da escuridão e então começa o desenrolar. As mentes curiosas chegam-se para a frente, os corpos mais gelados aconchegam-se no calor dos que lhes são chegados, embrulhados em cobertores. E então, estas histórias, estas lendas, estes mitos, estes contos que se formam ao longo dos anos, têm inicio. E até quem as conta, quem as revela, aumentam-nas uma pouco, deixam um pedaço do seu ser, da sua personalidade nelas, gravadas com as suas palavras e com os ouvidos cheios desta melodia, cada um acaba por adormecer, rendido ao cansaço de um dia de trabalho. E as lendas? As histórias? Os mitos? Os contos? Apegam-se ao vento e vão com ele, para outra cidade, vila ou aldeia.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Havia um garoto

Havia um garoto, com uma doença. A doença não era muito má. Era escoliose, sabe o que é? É um desvio lateral na coluna. Pois bem, esse menino tinha dores horríveis nas costas. Por vezes, insuportáveis mesmo. Mas ele não se queixava. Doía? Então ele fingia que nada passava e continuava, como se nada fosse. Ele deitava-se à noite e as lágrimas vinham-lhe aos olhos, com a dor. Ele endireitava-se na cadeira e tinha que respirar fundo, como se nada fosse. E havia momentos em que ele só queria chorar e mostrar que também podia ser um pouco fraco. Mas ele não o fazia. E então as notas começaram a baixar. A cada dia que passava, ele resguardava-se cada vez mais no seu próprio mundo. Fica irritável, com minorias básicas. Não era ele. A fisioterapia? Ajudava um pouco, sim. Toda a gente queria que o jovem fosse operado. ‘Era o melhor’ como todos diziam. Mas ele não queria e pensava ‘Há pessoas bem piores que eu, pessoas que precisam mais do meu lugar’. Sabe, esse menino tinha um sonho: ele queria ser médico. Era o que ele mais queria, desde pequenino. E sabe, ele não queria o dinheiro para comprar grandes carros, ou grandes casas. Não. Ele queria uma casa modesta, onde podesse sentir-se confortável. Talvez com uma mini-biblioteca. Isso não era um talvez, era uma certeza. E o que sobrasse? Iria para instituições, para quem mais necessitava. Porque ele era assim, tudo para os outros, para quem mais necessitava. Então, nas férias, decidiu ir trabalhar para um centro de ajuda a pessoas com grandes doenças. E ela aprendeu muito nesse centro. E agora todos se perguntam a si mesmos qual é a moral da história. Não existe nenhuma moral. O rapaz? Esse viveu muito no centro. Viveu experiências que quase ninguém se dá, sequer, ao trabalho de pensar em vivê-las. Mas aprendeu uma grande coisa: aprendeu a viver com a dor, a controlá-la e a aceitá-la, pois ela, com o tempo, acabaria por passar, acabaria por ir embora. E então, o rapaz não ficou preso, não. Ele dedicava-se na fisioterapia. Quando doia? Já não a reprimia, fazia pequenos exercicios, de modo a acalmar. E ele foi crescendo, e acabou por dominar a dor. A operação? Essa, é que ele nunca aceitou.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Pensa neles, só uma vez (...)

Antes de pensares em ti, pensa nele. Olha para ele como um exemplo daquilo que se passa à tua volta, mas que tu não tens sequer vontade de saber. Pensa nele como um exemplo daquilo que tu não passaste. Tu dizes que tens fome, mas já pensaste bem no significado dessa palavra? Talvez não. Tu tens fome, vais ao armário e tens lá bolachas, fruta, comida à tua espera, para te satisfazer. Mas já pensaste, alguma vez, que por aí existe alguém que não tem nem um pedaço de pão para comer? Já pensaste sequer que no preciso momento em que tu disseste ‘tenho fome’, outros milhares fizeram o mesmo? Mas sabes, a diferença é que tu, levantaste do sofá e vais comer enquanto que dois terços daqueles que disseram o mesmo que tu, continuam e dize-lo e a dize-lo, esperando algo que o sacie daquela fome (…) Tu reclamas porque no Natal não te deram aqueles ténis Nike que querias, mas não páras para pensar nas outras milhentas coisas que recebeste e que existe por aí alguém que caminha descalço, sobre o chão nu, sujo de vidros, pedaços de natureza, pedras e outras coisas, com os pés lacados em feridas. Tu chegas ao Inverno e dizes que tens frio porque só vestiste 3 camisolas, no entanto existe por aí alguém que entrou em hipotermia simplesmente por só vestir um fato sujo e gasto pelo tempo. Tu olhas para o teu armário e ficas frustrado/a por não teres nada quando ele está cheio até a cima, e no entanto existe por aí mil e uma pessoas que não têm nadapara cobrir o corpo, apenas restos de tecido, esfarrapados. Pensa, antes de dizeres ‘eu não tenho’, porque existe gente que tem bem menos que tu e vive. Pensa, antes de dizeres ‘eu quero morrer!’, pois existe gente que luta contra a morte, luta por viver, por continuar a respirar, luta por continuar a sentir os ar a entrar nos pulmões. Pensa, sempre que dizes que a tua vida não presta, porque o teu grande amor te deixou, existe gente que nem pais tem e vive lutando, por ser normal, por ter uma vida normal, por sobreviver neste mundo em que o ‘eu’ vem antes dos outros. Achas-te lutador? Então abre a internet e uma vez não vás só a sites banais, vê a quantidade de pessoas que lutaram por continuar neste mundo, que não desistiram de viver, que lutaram não por um amor mas sim por uma oportunidade de continuar com o sangue a correr nas veias. Se te achas forte, então pensa naqueles que viram a família a morrer e nada puderam fazer para evitar isso, a quantidade de pessoas que vivem em condições deploráveis, sem as mínimas condições de higiene, a dormir ao lado de bactérias e insetos, contagiadas por doenças às quais não podem lutar porque não têm os medicamentos necessários. Antes de tudo, olha para a tua volta e pensa no quão és sortudo/a por teres uma casa que não está a cair, por não dormir num pedaço de cartão, por te poderes levantar e beber um simples copo de água.