terça-feira, 14 de junho de 2016

    A caneta foi substituída pelo teclado, o papel pela tela, o som do bico a raspar na folha pelo som dos dedos nas teclas. Quase sem darmos por isso, fomos transferidos para um novo mundo, onde as letras aparecem sem as formarmos. Transferimos o que pensamos através de fios, uma extensão do nosso ser que talvez se assemelhe mais a ele do que o caderno que guardamos na prateleira, esquecido e com pó. Uma evolução, diriam os entendidos. Porém, não sabe a evolução. Sabe a uma perda, como a de um colega que mudou de escola. Como a inocência que chegou ao fim, quase sem dar-mos conta. 
    Devíamos ser mais do que meras sombras. Mais do que vestígios da nossa existência, do que traços que, sem darmos por isso, desaparecem. Devíamos fazer mais, ser mais. Somos capazes de tal. Mas não somos. Somos capazes de falar, de dizer, mas não de agir. Capazes de erguer a voz, mas nem um dedo mexemos. Dormimos bem, ao final do dia, sentimos que fizemos o nosso papel. Que papel é esse? Escreveram-no antes ou depois de nascermos? Ou foi por ele que nascemos?

terça-feira, 19 de abril de 2016

    Já era tempo de regressar ao sítio onde fui feliz. Tempo de voltar a ser quem era, de gostar do que gostava, de ouvir o que ouvia, de sentir o que sentia. Tempo de retornar ao eu que sempre conheci. Ao eu que sempre teimou em ser ele mesmo, mas que nunca lhe fez jus. Já era tempo. Era. Não era? Algo me diz que sim. (Algo. Sempre me disseram que era uma palavra vaga, vã, vazia. Parece-me que serve. Se não servir, também não tem mal. Uma consciência inconsciente não se importa, muito menos quer saber.)