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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Talvez, não sei.

Escrevi um texto. Mas perdi-o. Não sei onde o encontrar e muito menos onde o procurar. Paciência; já lá vai. Talvez seja fria ao dizer isto desta forma ou apenas alguém que não se quer preocupar com algo que a consome. Não sei. Esta é mais uma das coisas que ainda não descobri. São tantas, ou tão poucas, que não as consigo recordar. Novamente, não sei. Sou talvez, um não sei que deambula sem qualquer propósito. Mas também, quem se preocupa? Eu não, com certeza. Ou talvez sem tanta certeza. Cabe a mim perguntar-me a mim mesma se me preocupo, porém não sinto coragem nem força para o fazer. É difícil perguntar-me o que já sei mas não quero saber. É difícil tomar consciência do que já faz parte do meu consciente sem eu mesma querer. Não sei. Estas batalhas que não quero ter cansam-me de forma excessiva, mais até do que qualquer pessoa repara. Até eu, por vezes, deixo de o reparar. Mais uma, menos uma, no fim o resultado será o mesmo. E o mais provável é que seja o pior deles todos. Ou talvez até não. Não sei. Não sei e não quero mais disto. Não quero mais desta incógnita constante que cresce e aumenta sem que alguém a faça parar. Eu não a faço parar. Talvez por fraqueza, talvez por cobardia, talvez por resignação. Não sei. Qualquer uma destas razões parece-me plausível, mas talvez não seja nenhuma dela. Talvez seja outra que encontrarei mais tarde. Mais lá para o fundo do meu caminho. Não sei. No entanto, eis uma questão que não tem qualquer problema em mostrar-se: chegarei a esse fundo? A resposta amedronta, assusta, aterroriza. Escolham a que preferirem. Ou então, não o façam. Nem eu o farei. Porque não sei qual deles sinto. Na verdade, sinto muito pouco. Ou talvez sinta tanto que não sinto nada ao todo. Talvez esteja tudo guardado numa caixa à espera de ser aberta. Ou talvez esteja tudo ao descoberto e eu pura e simplesmente tornei-me imune. Não sei. Como poderei saber? Mais, quererei saber? Ou talvez já saiba. Não sei.  Digo-o demasiadas vezes. Porquê? Não sei. Por algum motivo que, juntamente com o meu texto, se perdeu, e eu não sei onde o encontrar e muito menos onde o procurar.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Quarto Vazio

Num quarto completamente vazio, vejo-me reflectida nas paredes de cal nu. No branco mais puro, a minha imagem aparece distorcida, inibida de pudor. Parece algo irreal, como que num sonho que tende a ser um pesadelo. Vejo-me escrita, sem condescendência alguma, numa tinta preta, letra ilegível, que se confunde com pouco mais que um pequeno rabisco em toda a pele. A caneta jaz algures no chão e por mais que me esforce, não a alcanço. Ela rebola pelo azulejo como que numa brincadeira que a diverte, apenas porque pode. O desespero de querer sair daqui já não existe. O pânico de estar fechada numa caixa há muito que foi embora. Neste momento, apenas há uma esperança - ainda que vã - de algum dia conseguir sair daqui. Uma esperança - ainda que pouca - que alguém, algures, saiba onde estou e me tente resgatar. Contudo, o tempo passa, ninguém vem e a esperança vai-se desvanecendo. 
Oiço uma voz que é minha, porém, eu não falei. Oiço o meu timbre a desvanecer-se no ar, no entanto, não foi eu que o comecei. Ao olhar, reparo no meu reflexo, sentado, fixado em mim. Desprovido de qualquer emoção, começa a falar. Num disparar de palavras, ataca as poucas defesas que me restam. Tento não ouvir, bloquear aquele som da minha mente, mas ele é mais forte e acaba por vencer. Sento-me, sentido o frio na pele que já perdeu a sua cor, e apenas escuto. Não sei se durante minutos, não sei se durante horas, não sei se durante dias. A noção de tempo já não mora aqui, deixou-me, deixando somente uma desorientação que há muito desisti de consertar.
Ele continua o seu discurso e eu pergunto-me quando ; todavia não me parece que vá acontecer. Isto não é uma pessoa, com necessidades, que precise de descansar. Não. Isto é algo que apenas existe, como um objeto à qual deram o dom de falar mas não o de sentir. Uma coisa, isso sim. A minha mente implora para que tudo acabe, que
Aos poucos, os meus olhos vão-se fechando. As pálpebras esforçam-se por não cair, mas o cansaço é tanto que é quase impossível continuar desperta. O meu corpo cede e a voz vai-se tornando menos nítida, menos clara. Paz, é tudo o que consigo pensar.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Nada em lugar algum

Esta floresta é tão negra. Onde vou? Qual é o caminho? Olho em volta, uma, duas, três vezes, e mais umas quantas. Não sei, não o vejo. Tento perscrutar a escuridão, encontrar algo que me indique onde estou, para onde posso ir. Não encontro. Que sítio é este? Melhor, como vim aqui parar? Não me lembro, não sei de onde vim, não sei que estrada me trouxe até aqui, onde estou, quero saber, preciso de saber. Ando. Dou voltas e voltas, em busca de uma saída. O ar pesa. Corrói-me por dentro. Os pulmões imploram por alivio, mas ele não vem. É como se um veneno pairasse à minha volta, cada vez mais pesado, cada vez mais tóxico. Tropeço, não sei onde ou como, o chão parecia limpo, mas até ele mudou. Deixo-me ficar estendida no chão, sinto os músculos a pedir descanso, estão cansados, quando foi a última vez que parei, não me lembro, mais uma vez, não me consigo recordar. O sol, onde está? Ele tem que nascer, todos os dias, ele nasce, porque é que ainda não apareceu, porque é que não o consigo ver? Deito-me de costas, consigo olhar. Olhar? Olhar para onde? Não há nada para ver. Não há nada distinguir. Estico a mão e entendo que nem isso consigo observar. Tento olhar para mim mesma, mas é como se não estivesse aqui. O que se passa, o que é isto? O medo apodera-se de mim. Que sítio é este, que terra é esta, onde foi que vim parar, como? Levanto-me, meio atabalhoadamente. Tento dar passos, mas eles são instáveis, a pernas tremem, de frio, de medo? Não sei, não consigo distinguir, talvez dos dois. A minha cabeça anda à roda, não consigo pensar, ou talvez consiga, em excesso. Sinto um arbusto à minha frente e depois, o chão. Espinhos. Espinhos por todo o meu corpo. Nas pernas, nos braços, na barriga. Com os dedos trémulos, começo a retirá-los, um por um. Cada vez dói mais, cada um mais fundo do que o outro. Alguns entraram debaixo da carne, já não saem. Respiro fundo, olho em frente, preciso de sair daqui, por onde, preciso de um caminho. Porém, por mais que tente, não consigo, por mais que tente, não há nada que me leve a sair daqui, nem sei onde é que o aqui é. Sinto a réstia de força que tinha a ir-se embora, sinto o desespero a tomar conta de mim. Grito. Não sei porquê, mas grito. Peço ajuda. Chamo por alguém. Berro com a força que resta dos meus pulmões. Este ar, está pior. Não me permite respirar. Quebro. Começo a chorar e apercebo-me que nem as minhas lágrimas sinto. Estarei mesmo a chorar, ou será o cansaço a levar a sua avante? Não pode ser. Pode? O que é isto, o que é que me está a acontecer? Tirem-me daqui. Levem-me daqui. Eu só quero sair daqui. A dor causada pelos espinhos, não está lá. Passo os dedos pelas pernas, mas não as sinto. Não sinto nada. Sou real? Isto é real? Ou é só algo que a minha mente criou? Eu não sei. Eu não sei quanto tempo passou, quanto tempo perdi. Não sei quem sou. Quem sou eu? O que estou a fazer aqui? O que aconteceu? Tantas perguntas, a minha cabeça recusa-se a mais. Deito-me no chão sujo e fecho os olhos. Não há diferença entre tê-los abertos ou fechados. Não vejo nada, em ambos os casos, mas não me importo. Deixo-me ficar. Aos poucos, o meu corpo acalma-se. O ar continua pesado, os pulmões, cansados, mas parecem ter baixado a guarda, parecem ter desistido desta luta desnecessária. A mente vai-se esvaziando, os pensamentos vão saindo. E, finalmente, encontrei a saída.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Do tudo ao nada

Como as folhas de outono que caiem.
Como as folhas de primavera que crescem. 
Como o riacho que seca no verão. 
Como o riacho que se enchesse no inverno. 
Como a chama que arde
Como a chama que se extingue
Como as ondas que cessam na areia. 
Como as ondas que se formam no mar. 
Como o Sol que se põe todas as tardes. 
Como o Sol que nasce todas as manhãs. 
Como a linha que tem fim. 
Como a linha que tem inicio.
Como a Lua se esconde todos os dias. 
Como a Lua que se mostra todas as noites. 
Como as flores que morrem no frio. 
Ou como as flores que nascem no calor. 
Como as nuvens que se dissipam. 
Como as nuvens que se formam. 
Como a luz que se apaga. 
Como a luz que se acende. 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Um pequeno nada

Não sei quantos textos já comecei sem ver inicio às palavras. Quantos textos tentei formar, juntando frases que no fim, não se ligavam entre si. Perdi a conta aos rascunhos no meu computador, às folhas que amachuquei, aos textos que ficaram a meio (ou nem tanto). Ultimamente, nada se forma. Nada se constrói. Posso dizer, que não me lembro da última vez que me senti assim. Sem inspiração, sem criatividade, sem forma de conectar as palavras entre si. Posso dizer, a sensação não me agrada. E a pior coisa é quando sei que preciso de desabafar, mas não consigo. Não consigo deitar cá para fora tudo o que sinto, tudo o que penso, tudo o que se passa. Pela primeira vez em tempos, não consigo transferir os meus pensamentos para o papel, não consigo falar com o meu melhor amigo. Porém, eu preciso. Preciso da sua ajuda o mais depressa possível, preciso que ele fale comigo, que ele me diga o que necessito saber, que ele me dê as respostas que procuro, mas como poderá ele dizer-me se nem as perguntas sei fazer? Para mim, este é pior estado de espírito. Aquele em que queremos dizer tudo, queremos gritar ao mundo o que nos vai pela mente, queremos mostrar as nossas reflexões, mas eles recusam-se a sair. Recusam-se a ser expostas, assim, desta forma. E por isso fecham-se cá dentro. Trancam-se a si mesmas. Elas não notam. Não percebem que me confundem a cabeça, cada uma a quer ganhar, a querer levar a sua avante, cada uma quer ser a escolhida, elas não entendem o que isso me causa, o que isso provoca na minha cabeça, elas são mas fortes, e de tanto querem sobressair, acabam por acabar com a pouca sanidade que resta. Não consigo, é uma luta permanente, entre o que oiço, o que queria ouvir, o que vejo, o que queria ver, o que sinto, o que queria sentir. É uma constante de guerra que não tem fim, uma constante de batalhas sem vitória. Porque não há ninguém para ganhar. Sou só eu. Sou eu contra mim mesma, ninguém mais. Apenas eu. No fim, apenas há um corpo cansado. Uma alma cansada. Cansada de lutar, cansada de não saber quem é, cansada de se arrastar até este ponto. Apenas uma alma cansada. Nada mais.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Não acreditarias

Se te dissesse, talvez não acreditasses. Ficarias em choque, seria uma 'bofetada' que te acordaria para a realidade. Porquê? Porque decidiste assumir que tudo está bem. Que nada mudou, que nada aconteceu, que sempre foi assim. Se te dissesse, com convicção, o que penso neste momento, não acreditarias. Acreditas, com tanta força, que nada se passa, que isso se tornou uma realidade. Desculpa por isso. Por me resguardar, por me esconder, por fingir ser assim, quando na verdade, não o sou. Não queria, desculpa. Mas eu sei que jamais poderei dizer tudo o que penso, tudo o que sinto. Eu sei, que jamais conseguirei fazê-lo, serei sempre isto, um ser desconfiado. Porque toda a gente pensa que me conhece, toda a gente acha que sou a pessoa mais feliz do mundo, que nada me deita abaixo, que felicidade é o meu nome do meio. Eles acreditam que me conhecem. E tu? Acreditas? Não sei se quero um sim como resposta, ou um não, ou um talvez. Não quero segredos, não quero esconder nada, não quero ser uma pessoa afastada, não quero, não quero, não quero. Mas também não quero a fraqueza. Não quero parecer vulnerável, fraca, frágil. Desculpa, por favor. Eu não queria isto. Eu sei que sorrio. Eu sei. E talvez não devesse. Talvez devesse agir perante os meus pensamentos e sentimentos, talvez devesse deixar a máscara em casa, só por um dia, só por uma vez, talvez o devesse fazer. 
Ficarias aqui, se o fizesse? 
Ou irias embora? 
Deixavas-me?
Tenho medo. Confesso. Estou magoada e assustada e não quero estar assim. Não quero que me julgues por isto. Por favor, não me julgues. Imploro-te. Não preciso de julgamentos. Preciso que me abraces e digas que nunca deixarás o lugar que te pertence, vazio. Por favor, promete-me isso. Eu necessito disso, com tanta intensidade. Mais uma vez, desculpa. Desculpa se errei. Não queria. Eu sei, que muitas vezes agi de forma errada. Não queria. Nunca o quis. 
Desculpa.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Sufoco

Por vezes, é como se não desse para respirar. Como se o ar falhasse, de tão longe que se encontra. Como se a minha traqueia tivesse um escudo que não permitisse a sua passagem. Um peso no peito, que impede as contrações do diafragma. Os meus pulmões não têm espaço para mais. As minhas mãos tremem. Quero controlo, mas não consigo obtê-lo, é algo demais para mim, simplesmente demais. Tento, mesmo assim, tento, a respiração está acelerada, o 'pumpumpum' descontrolado do meu coração preenche-me os tímpanos, afasta a calma que preciso, berro por silêncio, na minha cabeça, mas os pensamentos falam mais alto, berram mais alto. Tento inspirar fundo, sinto a pressão daquela força a impedir-me de o fazer. Uma pontada, mesmo nos pulmões. O que é isto?, pergunto-me, Como cheguei a este ponto? O meu estômago revolta-se, as minhas mãos tremem, num descargo de adrenalina, sinto arrepios pela minha espinha, o quarto começa a mover-se, num rodopio interminável, sinto o corpo a fraquejar, não consigo mais suportar mais o meu peso, cai no chão e envolvo-me em mim mesma, como se isso o fizesse parar, como se isso me desse controlo, mas não pára, não dá, não consigo. Tento chegar-lhe, tento alcançar aquele pedaço de ar que me falta, mas não consigo, ele está tão perto, tão longe, tão aqui, mas tão ali. Sei que neste ponto já a água saí de maneira estúpida, sem querer parar, não consigo conter-me, por mais que tente, não consigo, as minhas mangas estão encharcadas em lágrimas, a tremerem nas minhas mãos, descontrolo total. E depois.. nada.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Herói de ontem, Herói de hoje, Herói de amanhã

É como quando és pequena, e tens aquele peluche. Tu sabes, sabes que tens medo. Do escuro. Do silêncio. Do aborrecimento. Aquela pequena coisa fofa que te servia de almofada nas grandes viagens. Aquele pela qual procuravas todas as noites, antes de dormires. E que, provavelmente, caía no chão a meio da noite. Esse ursinho, ou porquinho, ou ratinho, era o teu companheiro. Ia onde tu ias, fazia o que tu fazias. Ela era o teu porto de abrigo, não é verdade? No meio de um pesadelo, tu abraçava-lo, e os monstros no armário ou os de debaixo da tua cama, já não te faziam mal. Era ele que comparecia a todas as tuas 'festas', com quem tu falavas no final da escola, e até, às vezes, ele respondia. A meio da noite, se querias tinhas de enfrentar as divisões vazias, era ele que te acompanhava. Era, basicamente, o teu herói. Que te protegia e salva-guardava. Mas a verdade, é que tu cresceste, não foi? E apercebeste-te, que o escuro já não é o mesmo, o silêncio, igualmente. O aborrecimento mudou de formato. E a almofada que queres, já não é ele que ta fornece. Os tempos mudaram, não foi? Esse ursinho, ou porquinho, ou ratinho, está agora no fundo da cama ou numa prateleira, lá bem em cima. Agora passas, vais e vens, e ele fica-te a ver. A ir e a vir. Quando voltas da escola, já não é ele o primeiro a receber um bom-dia. Muito menos o primeiro a quem contas o teu dia. Muito provavelmente, já o fizeste com alguém. Honestamente, nem te apercebes disso. Não te apercebes o valor que o teu pequeno grande herói perdeu, em tão pouco tempo. A bem dizer, o teu herói já é, muito provavelmente, outro. Cresceste, e com isso, mudaste. As divisões vazias, agora são de outro tipo e quando as tens de enfrentar, não é ao teu ursinho, ou porquinho, ou ratinho, que vais pedir ajuda. Quando dás por ti, já não é por ele que procuras antes de dormir. As viagens? Essas mudaram, os caminhos são diferentes, atingiram proporções enormes e não levam somente umas horas a serem percorridos. Consequentemente, já não é aquele pequenino que vai contigo. O teu porto de abrigo mudou, tão rapidamente. É natural, normal, quando se cresce. Mas confessa, que à noite, quando tens aquele pesadelo, ainda é ele que te conforta. Confessa, que quando o escuro se torna tão sufocante, é ele, no fundo da tua cama, ou na prateleira alta que abraças. Porque apesar de viveres a tua vida, apesar de cresceres, apesar das coisas mudarem, há coisas que permanecem. E aquele ursinho, ou porquinho, ou ratinho, é a prova disso.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Sou humana

Sim, sou humana. Carrego em mim um esqueleto, um fardo pesado. O meu sangue transporta quem eu sou, no que me tornei. A minha pele é a máscara, que protege o meu ser. Sou uma humana, como os outros. Eu erro. Porque não haveria de errar? Sempre o fiz e sempre o hei-de fazer. Tenho vergonha de coisas que fiz. De muitas coisas que fiz. É uma verdade. Sinto-me, muitas vezes, envergonhada por ter tomado certas decisões. Por não ter parado para pensar. Por me atirar de cabeça. Sim, sinto-me envergonhada, tanto que me apetece enrolar-me em mim mesma numa bola humana. Como se isso me escondesse da humilhação. Sou uma pessoa, arrependo-me e por mais que tente, não me consigo perdoar. Perdoo todos, menos a mim. Guardo a vergonha, ponho-a num canto, e ela fica ali, até decidir assombrar-me de novo. Mais ou menos naquele momento em que finalmente estou bem de novo. Não estou sempre num dia sim. Sou adolescente, como posso estar sempre bem? Não estou. Por norma, não gosto do facto de ser assim. Nas excepções, odeio. Mudava, sem hesitar, vários traços da minha personalidade. Sou ingénua e ainda penso que o Homem é algo pela qual vale a pena lutar. Não é. Aprendi, da pior forma, que lutar, só por sonhos. E mesmo assim, é difícil. Cresci. Oh sim, eu cresci. Por vezes, gosto de quem era. São raras, mas até existem. No entanto, só me consigo lembrar das minhas falhas, dos meus erros. Do que não devia ter feito, mas fiz. Do que não devia ter dito, mais disse. Sou humana. E que humana. A minha cabeça é uma confusão, os pensamentos correm de um lado para o outro, embatem contra as paredes do cérebro, tanto que tenho de parar e gritar 'não'. Anda tudo por aqui, sem pedir permissão, cada um a querer levar a sua avante. Cada um a querer a minha atenção. Fazem-me parar o que quer que seja que estou a fazer, para os mandar estar quietos. Perco todos os dias, um bom tempo, a pedir que parem. Mas eles são teimosos, não querem parar. Continuam, como se nada fosse, como se a minha cabeça fosse um ring de boxe, na qual se luta por um prémio. Confesso que, por vezes, parece mesmo um ring de boxe. Nem eu encontro o que preciso, no meio de todas estas vozes, no meio de todos estes sentimentos ou emoções. Simplesmente, há dias que não consigo. Não sei como os levo até ao fim. Não sei. Mas levo-os. E a minha mente, continua aqui. Continua a adicionar características minhas ao meu sangue, a aumentar o fardo do meu esqueleto e a construir a mascara que é a minha pele. Sempre em frente, rumo a não sei onde.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Frágil Ser

Ela era um pequeno ser. Era frágil. Tinha um coração frio, congelado pelas memórias que lhe atormentavam o passado, ferido pela tortura com que havia vivido, partido com a queda do abismo a que a vida lhe tinha conduzido. Ela era muito nova, muito mesmo. Tinha, no entanto, uma vida cheia de horrores, cheia de dores, cheia de sofrimentos. O seu corpo, o seu próprio corpo, era uma amostra disso, era o que mais fazia entender o porquê de chamar ao caminho daquela pequena, o caminho do sofrimento. Os seus braços? Eram repletos de marcas, assim como as suas pernas, fruto de muitas batalhas vividas. Os seus pequenos dedos eram tortos, deformados, de tanto terem escalado montanhas e trepado árvores. Tinha uma cicatriz na sua mão direita, a que muitos chamavam a ‘Marca do Diabo’. Era, a pior, aquela que jamais sararia, assim como as do seu pequeno coração. A sua cara, porém, estava intacta. Tudo no sitio, mas os seus olhos, esses eram escuros, mais escuros que o manto negro que abalava a sua alma, mais negros que o céu que caía sobre o planeta, quando o sol se punha, mais negros que os dias de trovoada. A sua voz? Era fria, desprovida de calor humano, desprovida de amor ou sequer felicidade, desprovida daquele carinho que era tão bem conhecido entre as outras crianças, era apenas e só um som, um barulho que ressoava pelas paredes do seu mundo, pelas paredes do seu escudo protetor. Como poderia uma criança ser assim? Transformar-se em algo tão sombrio? Talvez quem tivesse visto os pais a morrer à sua frente. Alguém que sofreu nas mãos a que muitos chamariam Diabo. Talvez alguém que vivera no meio da floresta apenas com cinco anos, alguém que aprendera a viver com e apenas com animais e plantas. Triste não é? Uma pobre criança, quase um bebé, viver assim, lutar desta forma. Sim, já tinham passado anos desde essas alturas, 5 ou talvez 6, não havia certezas, mas a pequena sonhava com isso, como se tivesse sido ontem, a pequena vivia aquilo no seu subconsciente, dia após dia, semana após semana, ano após ano. A pequena jamais poderia ter uma vida normal, era demasiada dor, demasiadas lembranças. Mas ela já se habituara, a sua vida era assim, perdera os pais e os irmãos mas tinha sido poupada, apenas vira a morte dos pais, os irmãos haviam morrido em batalha da sobrevivência da pequena. Quanta dor as suas almas ainda deveriam sentir, lá em cima, no lugar onde as almas se encontram, onde as almas assistem ao mundo que se vai formando cá em baixo, no chão, no mundo. Desde o acontecimento, ela tinha começado uma nova vida, tinham-na descoberto num dia soalheiro, levaram-na para uma instituição, deram-lhe um lar, comida e roupa lavada. Deram-lhe a oportunidade da vida. O seu psicólogo está para além das capacidades da pequena, jamais conseguiria entender o que se passava na cabeça daquele frágil ser, ele tentava e ela não o culpava, ele sempre a tentara entender, era dos poucos que lhe ainda tentavam dar-lhe a definição da palavra amor. Mas ela não conseguia aprender. As pessoas que lhe deviam ter ensinado essas definições iam lá longe, tinha chegado à meta do seu caminho, já não estavam ao lado dela. Ela queria ver a mãe ao chegar da escola. Ela queria discutir com os irmãos e ‘lutar’ com eles. Ela queria sentir medo, chamar pelo pai, abraçá-lo e sentir-se protegida. Ela queria sair e ir explorar o mundo com a sua família, mas isso não lhe era possível. Ela levava-os para todo o lado, não ao seu lado, mas sim num lugar mas privativo, num lugar mais condicionado – no seu coração. Depois de tudo, ela não sentia. Ela não sentia alegria. Não sentia medo. Não sentia amor. Não sentia carinho. Apenas sentia solidão e dor, apenas e só isso, nada mais.


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Adeus

Tu foste embora, e nem um adeus disseste. Nada. Limitaste-te a ir. Sem qualquer despedida, sem qualquer justificação, tu só foste. Eu, eu, estúpida, eu, iludida, pensei que fosses voltar. E esperei por ti. Esperei, o tempo suficiente até entender que não ias voltar. O tempo suficiente para entender que já não havia espaço para mim na tua vida. Se calhar nem nunca houve, se calhar fui apenas um passatempo para ti. Mas eu, quer aches ingénuo, quer não, ainda espero por aquele adeus. Aquele que nunca me disseste, mas acredita, eu espero por ele. Espero, porque sem ele, é como se não existisse um fim, concreto. É como se eu ainda esperasse por ti, mesmo sabendo que nunca mais voltarás, mas mesmo assim, uma pequena parte de mim, espera. Espera que um dia tenhas tantas saudades minhas como eu tenho tuas. Provavelmente nesse dia, a dor será bem maior do que a vontade de te perdoar. É altamente provável. Nesse dia, porém, sei que posso avançar sem nada a prender-me atrás. Sem aquela pergunta constante. 'Ainda te lembras de mim, de nós?'. Egoísta, não é? Querer que tu 'cais em ti' só para as minhas perguntas serem respondidas? É verdade, talvez seja. No entanto, de mim, tu mereces isso. O meu lado frio, o meu lado egoísta, o meu lado que não quer saber de ti. Tu fizeste o mesmo comigo. E nem sei se sequer notaste no buraco que deixaste em mim. O quão difícil foi habituar-me a uma realidade sem ti. Eu acho que tu não tens noção alguma disso. Para ti, foi fácil. Vir e ir. É tão simples, não é? Eu gostava de saber como fazer isso. Como deixar de sentir de um dia para o outro, como ir embora sem sentir culpa de 'abandonar' alguém, como é isso, explica-me, eu quero saber. Pode ser que assim, eu entenda como foste capaz de o fazer. Mas talvez eu nunca consiga entender. É, eu nunca vou conseguir entender o que fizeste e porque fizeste. Desculpa se isso faz de mim uma pessoa pior. Não conseguir deixar de sentir. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Tu corres

E tu corres. Corres como porque te ensinaram assim. Corres porque o sangue nas tuas veias implora por isso, corres porque as tuas pernas não conseguem parar. Por isso, tu corres. Com uma intensidade surpreendente, com uma velocidade espantosa. Mas a verdade, é que tu corres. Como se nada te fosse parar. Como se nada te fosse travar neste caminho. Progrides, avanças sempre a correr, sempre. Ultrapassas os obstáculos, é fácil para ti. Vais lançado/a. É simples, saltar quando é uma árvore caída, desviares-te quando é uma rocha no meio do chão, manter o equilíbrio nas poças de lama. É tão simples, para ti. Continuas a correr. Porque nada te impede disso. Se alguém te faz uma rasteira, limitaste a afastar-te e a seguir caminho. Sempre rápido, sempre veloz.
Mas eis, que paras. Olhas para a frente, mas já não te podes mover. Tens um abismo, à tua frente, tão grande, tão profundo, nem lhe vês o fim. Olhas para trás, mas está tudo escuro. Tão escuro, não consegues vislumbrar nada através de toda aquela negrura. Do teu lado esquerdo, do teu lado direito, é tudo igual. Escuro, escuro, escuro. Sem fim que consigas notar. Vamos lá, pensa. Que podes fazer, neste ponto, nesta situação? Arriscar no precipício? Talvez te tenhas enganado, pode nem ser assim tão profundo, tão grande. Pegas numa pedra, e atira-la para aquele imenso vazio. Está tão silêncio, que consegues ouvia-la a cortar o ar, tão claramente. Enquanto cai, porém, o seu som vai-se desvanecendo. E aos poucos, aquilo que era claro, torna-se indecifrável. Prestas atenção, mas ela nunca mais cai, mais uma vez, aquele buraco, aquele abismo, parece não ter fim.
Já te sentes com medo, não é? Então, pensei que tivesses coragem, pessoa veloz. Pegas noutra e repetes o mesmo processo. Uma e outra e outra. Mas de todas as vezes, é tudo igual: o som da pedra por entre o ar e depois ele a desvanecer-se, até deixar de existir. O pânico está-se a formar, não é? Olhas em volta, procurando uma saída, mas não há saída. Ou o escuro, ou o abismo. Lá ao fundo, não sabes muito bem onde, ouves o primeiro som, naquele imenso espaço deserto. Mas não é propriamente um som alegre. É daqueles de criar arrepios pela espinha abaixo, aqueles que tornam o coração pequenino, aqueles que nos fazem pensar em todo o tipo de cenários que não julgávamos algum dia pensar.
O terror, já é grande. Vamos lá, pensa, o tempo é escasso, tens de escolher um caminho. Pensas no abismo. Talvez, se uma árvore caísse e servisse de ponte, conseguisses atravessa-lo. Seria uma hipótese, e bem viável. No outro lado, não há nevoeiro. Há um espaço aberto, que parece que chama por ti, que diz o teu nome. Ali, porém, não há árvores caídas, nem em vias de cair. E tu, até podes ser forte, mas a força não te chega para mandares uma árvore abaixo. A lua move-se, lá alto no céu. O tempo está a passar, rápido, precisas de agir, tomar uma decisão.
Optas, então, por voltar por onde vieste. Apesar de não se ver nada, apesar de não conseguires entender onde podes ou não por os pés, optas por seguir por ali. Vamos, então. Está a ficar frio, e tu estás a senti-lo. Consigo ver isso. Apertas os braços em volta ao corpo, a tua roupa já não é suficiente para manter a temperatura do teu corpo. Não esperavas uma corrida tão demorada, pois não? Mas vá, não está a ir mal. Mesmo com nevoeiro, ainda não caíste. Penso que seja bom, o teu sentido de orientação não é assim tão mau quanto aparentavas.
Porém, quanto mais te embrenhas nesta floresta, ou bosque, ou caminho, o nevoeiro torna-se mais espesso. Tão espesso que mal consegues ver o fumo criado pela tua respiração, tão espesso que nem os teus pés consegues ver. Começas a chorar. Queres voltar para casa, não é? Estar perdido, simplesmente não é algo para ti. Estás gelado, cansado, com fome e sede. Já nem sabes por onde vieste. Cais no chão, controlado pelo medo, pelo choro. Não há saída, e tu sabe-lo.
Ao ergueres o olhar, vez um criatura. Ela não é linda. Não é daquelas que nos descrevem nos contos, aquelas que nos salvam ou ajudam. É uma criatura que nos arrepia e que torna o nosso coração, ainda mais pequenino.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Chorar

Queres chorar? É isso não é? Então chora. Consigo ver isso. Estás lá quase, já não aguentas muito mais tempo. Não há nada de errado com isso. Nada de mal. Chorar faz bem. Alivia a alma. Eu sei que já deves ter ouvido isto muitas vezes, no passado. Tudo o que te estou a dizer, já to é conhecido. Mesmo assim, não tenhas medo de chorar. Chorar é normal. Se não o fosse, não o poderíamos fazer. Ajuda-te a aclarar a mente, sabes disso. Não te enganes, não mintas a ti mesmo/a. Não digas que não precisas, tu sabes que precisas. Sentes isso? Essa água que se está a apoderar, aos poucos e poucos, dos teus olhos? São as lágrimas a querem sair. Estão desesperadas, prendeste-as aí dentro por demasiado tempo. Aprisionaste-as e nem notaste que necessitavas de as deixar escorrer. Mas elas, são demasiado selvagens para aceitarem ficarem presas assim, de modo incompreendido. Elas lutam contra ti e tu lutas contra elas. Porquê? Deixá-las sair, não é atitude fraca. Tens sentimentos, emoções, és humano/a. Isso é mau? Eu sei, dói. Dói deixá-las vir cá para fora, deixá-las sair. Não queres dar parte fraca, queres mostrar-te forte. Não aos outros, a ti. Queres provar a ti mesma que consegues passar por cima disto, com a face seca. Eu sei que sim. Mas acredita em mim, depois disso, depois de te renderes a essa dor por momentos, depois de te deixares ir abaixo, a dor alivia. As lágrimas chamam-na cá acima e depois expulsam-na. Mandam-na embora. Tens medo de quê? Ninguém te pode ver. O quarto é só teu. Não tenhas medo, principalmente de ti. Não tenhas. Não te aches fraco/a. Não és. Sabes bem, não podes ser sempre forte. Aliás, chorar dá-te força. Todos nós chegamos ao ponto de já não conseguirmos aguentar mais. És forte, não te culpes. Não há culpa em chorar. Não é um erro. É algo que te faz falta. Algo que precisas para depois conseguires seguir em frente. Algo que todos nós precisamos. Portanto, chora. Deita tudo 'cá para fora'. Vês? É fácil. Aliás, atrevo-me a dizer que é das coisas mais fáceis de se fazer, chorar. Agora que começas, torna-se difícil parar. Tudo vem à tona, não é? Não te preocupes, liberta tudo. Tudo o que acumulaste, aí dentro, toda essa pressão, essa dor, esse medo, essa saudade, essa mágoa. Liberta-te disso. Gota e gota, tudo vai-se aclarando na tua mente. Este, és tu. Sem qualquer máscara. Sem qualquer muro protetor, sem qualquer barreira. És tu, simplesmente tu. Com tudo o que tentaste esconder. Com tudo o que ocultaste, durante este tempo todo. O sofrimento disfarçado em modo sorriso. Esse sorriso, o teu falso companheiro.

domingo, 28 de outubro de 2012

Dias de Vento

Dias de vento, fazem-me sentir saudade. Trazem as recordações mais profundas, despertam os sentimentos que eu julgava já ter esquecido. Fazem-me visualizar cenas, uma e outra e outra vez, na minha cabeça. E essas lembranças, trazem ao de cima o que eu era. E fazem-me desejar voltar atrás no tempo. Voltar atrás, nem que seja por um dia, só um. Lembro-me de memórias, que nem sabia que me lembrava. Mas elas estão lá, claras como aquele dia sem nuvens. E o meu desejo arde mais intenso, de voltar e parar, ali, naquele preciso momento, ficar ali. Porque ali tudo era fácil.
Dias de vento, fazem-me perguntar ‘e se’. E se as coisas tivessem sido o oposto. Se eu tivesse conhecido outro pessoa, em vez daquela? Se eu não tivesse mudado de casa? Se eu naquele dia, não tivesse tido coragem de falar àquela menina tímida, à porta da sala de aula? Se eu não tivesse, naquele dia, ter tido a coragem de lhe perguntar se estava tudo bem com ele? Teria sido diferente, teria feito uma grande mudança na minha vida. Ou talvez não. Talvez as coisas continuassem como são. Talvez por qualquer outro motivo acabasse por conhecer quem conheci. Feito o que fiz. O condicional é muito improvável, mas ocupa o meu espirito quase todo o dia.
Dias de vento, fazem-me pedir que estejas aqui. Apesar de eu saber que não estarás, mas não importa. Não importa quês digam que sou parva, que te devia esquecer, que tu me magoaste e que ser ingénua ao ponto de te querer de volta é estúpido. Mas eles não entendem. Eu quero-te como amigo. Porque apesar de tudo, tu sabias sê-lo. Tu sabias dar-me apoio. O que dizer, quando dizer. Não quero mais que isso. Pedir uma amizade, é pedir muito? Talvez até seja. Talvez eu esteja a pedir um mundo a uma pequena estrela. Mas acredita, tu ainda brilhas. E isto pode ser a minha parte fraca a falar. É provável que seja. Mas não faz mal. Todos nós a temos, não é verdade?
Dias de vento, fazem-me bem. É como se depois de tudo isto, lá no fim, levassem tudo com eles, como se ao se irem embora, se misturassem com a dor e a levasse. Como se pegassem na mágoa e arrastem-se com eles. E eu gosto disso. O que me faz gostar destes dias. Em que o cabelo bate forte contra a cara. Até nos dignarmos a atá-lo. Mas a bem dizer, eu gosto do cabelo nos meus olhos, contra a minha boca, a roçar no meu nariz. Gosto de sentir o seu cheiro. Porque isso? Traz-me a casa. Mostra-me quem sou. O seu pequeno perfume, mostra-me onde pertenço. Mostra-me que ainda algo é real. Por isso, não me importo que o cabelo esvoace livremente.
Dias de vento. São dias. E que dias. Dias que me confundem. Que baralham tudo cá dentro. Mas no crepúsculo, já decidiram o que levar e o que deixar. São dias, daqueles que eu gosto.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Puzzle

Era um puzzle. E era tão belo. Cada peça no seu lugar, cada traço completando o outro. Era pequeno ao início, eram peças básicas, muito básicas, certas linhas, certos pontos, mas tudo incerto, era tudo um esboço do que estaria para vir. A medida que o construíam, foi-se transformando em algo mais complexo. Algo mais do que simples peças, linhas ou pontos. As linhas transformavam-se agora retas, bem definidas, bem traçadas. Ângulos bem estruturados. Os pontos eram visíveis, cruciais neste empreendimento. Era algo imprevisível, e as peças jogavam umas com as outras. Fazendo imagens, criando emblemas. Construindo diálogos. Do nada apareciam mais pedaços, cada um diferente do anterior, cada um com um sítio próprio, cada um com o seu significado. Era, não, é um puzzle. Um puzzle difícil de entender, para muitos, até indecifrável. E o seu criador tem de ser astuto. Muito mesmo. Porque criar um puzzle não é tão fácil com parece. Não é só juntar peças, mas sim juntá-las de forma correta. Juntá-las de modo a que encaixem umas nas outras, de modo a que façam sentido, não são juntá-las para as despachar. E juntá-la corretamente requer tempo. Um tempo indefinido, mas que é um tempo. E quando se repara, desaparece uma peça. Procura-se por ela por todo o lado. Debaixo da mesa, talvez tenha caído. Atrás do sofá, talvez alguém tivesse passado e a tivesse empurrado para lá. Procuramos no quarto, talvez nós a tenhamos levado para lá e nem nos lembramos. Mas não. Essa peça desapareceu. Como se nunca tivesse existido à face da terra. Mas aquele lugar vazio no puzzle diz-nos o contrário. E então, o seu criador tenta desesperadamente remendar aquele buraco, aquele lugar vazio. Mas não consegue. Não há mais nenhuma peça como aquela. E ele fica à espera que ela aparece. E aparecem, aparecem muitas. Mas nenhuma com aquele tamanho, com aquele formato. E por mais tempo que passe, nenhuma peça volta a ser com aquela que foi perdida. E aquele lugar fica vazio. À sua volta, outras peças vão formando outras imagens, as linhas unem-se, os pontos seguem-se e as fotografias aparecem. E depois, outra peça desaparece. Outra vez. E outra vez. Aqui e ali, o nosso pequeno grande puzzle tem buracos, vazios contra a grandeza daquelas imagens. Isto, porém, não muda o facto de ser um puzzle lindo. É, apenas, incompleto. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Piminho

‘Piminho, beijinho, beijinho’, eu era uma criança extremamente fofa, tens de admitir. Mas pronto, tu também és um primo extremamente fofo, também tenho que admitir. É pena não te poder ver mais vezes, poder chatear-te mais e mais, confesso que já tenho saudades de quando te via todos os dias. E tu? Tens saudades de quando me aturavas dias seguidos? Talvez tenhas, acredita, eu tenho e muitas. És um primo mesmo daqueles com quem dá gosto passar o tempo, com quem dá gosto falar e estar, com quem dá gosto provocar. Não passámos muito tempo juntos, ao longo destes anos, é bem verdade e, muito infelizmente, é uma daquelas verdades que gostávamos de tornar mentira. Mas, apesar de ter sido pouco, sempre nos demos bem, muito bem até. Não me lembro das vezes que te vi quando era pequena, era demasiado nova e esses tempos falham-me, mas acredito quando me dizem que te adorava e que só queria que me desses colo e beijinhos e sabes porquê? Porque agora, já crescida, sinto-me confortável contigo, apesar de ser um pouco tímida para com as pessoas que não conheço bem, eu sempre me senti bem ao pé de ti e ainda me sinto bem, muito bem, como já disse antes e repito, muitas e muitas vezes, que estar contigo é algo que me deixa feliz, muito feliz. Lembraste das minhas maluquices, a ver o Nemo? Pois é piminho, não é qualquer um que vê o meu lado maluco, o meu lado espontâneo. És um péssimo cantor, já alguma vez te disse isto? Eu também sou, todos nós sabemos não é, e odeio cantar (em público) mas juro, que se fosse para cantar de novo contigo, eu cantaria. Uma e outra e outra vez. Só mesmo porque o faria contigo, com o meu priminho já tão crescido. Com o meu priminho tão maluco, até mais do que eu, tão bem-disposto, cuja felicidade contagia os outros. E sim, contagia mesmo, essa tua alegria genuína, essa tua forma de estares sempre alegre, pronto para a brincadeira e para a palhaçada, essa tua paciência infinita para aturares as nossas pancas, as nossas grandes pancas, para todos os dias nos ouvires, para 'brincares' connosco e para discutires comigo qual é melhor, um livro ou um filme. Agradeço-te muito por isso, por seres um primo assim, tal e qual como és, por seres uma pessoa excelente e por me teres suportado durante estes pequenos (grandes) momentos. Acredita, cá dentro, estás bem conservado, juro. 



quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Chuva

A chuva é tão calma, tão tranquila, tão pura. Ela limita-se a cair, só a cair, unicamente a cair. Acalma-me tanto, andar à chuva, há tanto silêncio. Sem pessoas, a falar. Sem gritos. Sem berros. Só as pequenas gotas a caírem no passeio, umas atrás das outras. É um som tão bom. Daqueles que nos faz desejar mais. Daqueles que nos abre o espírito. Que nos faz lembrar de coisas que já há muito que tínhamos esquecido, coisas do passado. Que nos faz chorar, por essas mesmas coisas.  E chorar à chuva, é das melhores coisas que somos livres de fazer. Permite-nos pensar, para além daquilo que julgamos ser possível. Faz-nos ir mais além. Muito mais além. Sentir o cabelo a ficar molhado, aos poucos, ver a água a escorrer, tão devagar, como se não quisesse atingir o passeio. Pisar as poças de água, como se tivéssemos outra vez cinco anos, sem nos preocupar-mos com constipações ou doenças. Sabe tão bem, aquele cheiro a relva molhada pela chuva, aquela cheiro a terra húmida, que nos enche os pulmões. Não há carros, nas estradas já correm rios com a água toda que cai e ninguém quer arriscar um acidente. Sento-me ali mesmo, no meio daquilo tudo, a travar aquela ribeira que escorre, fico ainda mais molhada, encharcada até aos ossos, mas estar ali, é tudo o que quero. É dos melhores dias que há, os de chuva. Deito-me no alcatrão inundado, enquanto a chuva continua a cair, sem medo, sem qualquer tipo de medo.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Deixa-me dizer-te algo

Eu sinto tanto a tua falta. Tanto, mas tanto. E tu nem notas. Tu não entendes que eu preciso de ti. Que eu dependia de ti. Mas tu não entendes isso. Será que alguma vez entendeste isso? Sinceramente, acho que não. Acho que nunca entendeste o quão bonita era a nossa amizade. O quão grande eras no meu coração. Eras, sim eras. E agora, o vale que lá deixaste, ainda é maior. Dói tanto, quando julgarmos que conhecemos alguém,  e depois ver-mos que nada daquilo era verdade. Dói tanto, saber que fizemos tudo por alguém, e depois esse alguém não quer saber de nós. Como se nunca tivéssemos tido um papel fundamental na vida deles. E dói, dói muito, saber que vives como se eu nunca tivesse sido importante. E sabes? A dor começa a formar uma ideia na minha mente: nunca, mas mesmo nunca sentiste por mim, o mesmo que eu sentia por ti, nunca, mas mesmo nunca, tiveste tensões de cumprir as tuas promessas, e nunca, mas mesmo nunca, foi importante para ti. Ver nisto, que te tornaste? É tão doloroso. Tu não vês aquilo que és, tu não vês aquilo que mudaste, tu não vês aquilo que não faz sentido em ti. Tu não és assim. Mas sinceramente, eu não tenho mais forças para te fazer ver o que está à tua frente, bem à tua frente. Tu vais entender, acabamos sempre por entender aquilo que precisamos de entender. Só quero que saibas, que eu estive sempre aqui para ti. Que me trocaste por uma vida de mentiras. Talvez sejas mais feliz agora, nem sei se alguma vez te fiz mesmo feliz. Talvez nunca o tenha feito. Nunca foi capaz de te dar o que merecias. Foi isso? Se foi, desculpa, desculpa, desculpa, desculpa, desculpa. Mil vezes, desculpa. Mas eu tentei. Eu juro que tentei. Eu juro que me esforcei.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Poço

Está tão escuro, tão cinzento, tão sombrio. Olho lá para o fundo, primeiro a medo. É assustadora, a vista de cima. Sei que é perigoso, posso cair, nem sei a altura que tem, mas não consigo evitar, a curiosidade é tão grande que não consigo resistir-lhe. Respiro fundo e concentro-me, tentando notar algo que não seja a cor preta. Não sei o que esperava. Água, talvez. Sim, esperava isso. Afinal, o que é um poço sem água? Não faz sentido. Afasto-me do muro e procuro uma pedra, grande. Está tanto nevoeiro, mal consigo ver um palmo à minha frente. Ajoelho-me, encontrá-la. Costumavam haver ali tantas, porque é que já não existem? Realmente, aquele sítio mudara muito desde os tempos em que ia ali. Não interessava. Pedras eram pedras, não se iam simplesmente embora. Tem de haver ali uma.
Não sei quanto tempo passo ali, de joelhos, a tentar ver algo, a tentar encontrar aquela pedra que não quer aparecer. Procuro, procuro e finalmente encontro. É grande, vá, talvez média e pesada, tal como eu queria. Vou de novo para junto do lago e largo-a, deixando-a cair no vazio. Debruço-me, até ficar com a cabeça totalmente dentro dos muros do poço. As minhas mãos agarram-se às bordas, procurando estabilidade. Espero, espero e espero até que oiço um 'ploc' a avisar que a pedra já se encontra lá em baixo, em água. Que distância, meu Deus. Quanta água haverá lá em baixo? Será muita? Maior do que a altura da pedra é, de certeza, pois amparou a sua queda. Ampararia a queda de um ser humano? Teria altura suficiente para tal? Quem me dera saber. 
Tento sair, mas o pé escorrega-me na lama e tenho de me agarrar com força ao muro. Aleijo os dedos ao raspá-los no muro, arranho-os. O meu coração dispara. Respiro fundo e tento acalmar-me. Tento sair outra vez, com calma, mas o pé falha-me, e desta vez, as mãos não aguentam o peso e eu sinto-me a cair. A minha cara bate nas paredes do poço, os pés procuram desesperadamente um apoio, os dedos buscam tijolos saídos do muro para se agarrarem, mas só encontram musgo e plantas que se partem ao toque. O meu corpo tenta encontrar estabilidade, equilíbrio. Vou embatendo em fios, quanto mais deixo, mais chegados e próximos são. Continuo a cair, a cair e a cair, o que me parece ser uma eternidade. Os pulmões sentem necessidade de respirar e quando o faço noto o odor do ar, a pobre, bafiento. Quando dou por mim, estou  dentro de água. 
Uma água oleosa, nojenta. Bato os pés e venho à tona, inspirando profundamente, deixando aquele ar sujo entrar dentro de mim. Tusso, pois tenho algo na garganta. Não quero saber o que é, tenho nojo só de pensar nisso. Olho para cima e vejo um ponto, um único ponto de luz, lá em cima de tudo, bem lá ao fundo. Tento olhar em volta, mas não consigo ver nada. Não entendo se isso é bom ou mau. O pavor invade-me e sinto o estômago às voltas. ''AJUDA'', grito mas ninguém me ouve. Quem estará ali, àquela altura, naquele sítio? Ninguém, só uma louca. É isso mesmo, uma louca como eu, que agora está presa num poço. 
A minha mente começa a pensar em baratas, lagartos, sanguessugas e outros animais que possam viver ali, o que só aumenta o meu terror. Bato as pernas e agito os braços, freneticamente, agindo por medo, por pânico. Agito a água toda e grito, berro até. Tento normalizar a respiração mas não consigo. Ninguém está ali, para me acudir, ninguém está ali para me ajudar, para me ouvir. Ninguém. Estou sozinha. Quanto tempo aguentarei aqui? O meu corpo ficará cansado, começarei a ficar com cãibras, vou ficar com fome e sede. Começo a sentir coisas nas minhas pernas, no meu corpo. Estou a chorar, as lágrimas escorrem-me enquanto a minha mente procura furiosamente uma saída, mas não há. Tento escalar a parede, mas esta está húmida, não há pedras saídas, não há nada. 
E como uma criança que acaba de nascer, berro a plenos pulmões.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Eu lembro-me, todos os dias

Olá, sou eu. Sim, sou eu. Não sei se te lembras. Se te recordas. Mas eu recordo-me sabias? Todos os dias. Sou eu, sim, sou eu. Eu, que deixaste. Eu, que magoaste. Eu, que abandonaste. Sou eu, simplesmente eu. Só eu. Mas sabes, já não sou a mesma. Sabes disso, não sabes? Sabes que cresci? Que mudei? Que amadureci? Acho que sabes. Apesar de tudo, conhecias-me. Ou talvez não. Talvez nunca me tenhas conhecido como eu julgava que conhecia. Conhecias? Gostava de saber que sim, talvez isso ajudasse ao buraco que tenho, um buraco que deixaste, um buraco que ninguém repara. Talvez quando olhas para os meus olhos, vês o castanho-escuro que eles contêm. Só isso. Não sei se ainda tens a capacidade de identificar a verdade por detrás da sua cor. A dor. A mágoa de te ver partir desta forma. Não sei se algum dia soubeste. Não sei, não sei. É difícil. Isto tudo. Esta situação. Este cenário. Consome-me. Eu mudei. E tu? Mudaste? Eu não sei. Não consigo entender. Não consigo ver isso. Magoa-me, desculpa, é verdade. Desculpa se sou fraca. Desculpa se não consigo. Desculpa. Perdoa-me. Eu acho que mudaste. Para pior talvez. Ou talvez, esse ‘pior’ seja apenas uma máscara. Talvez estejas a esconder tudo o que sentias, de mim. De mim. Que te vi tudo. Que olhava nos teus olhos e descobria a verdade. De mim. Para a qual não tinhas segredos. Se calhar voltaste a refugiar-te no teu muro. Um muro que me afasta de ti, de uma maneira parva. Mas ela afasta. Esse muro, já não era barreira para nós. Mas agora é. Será isso? É apenas um meio de defesa? Ou és realmente isso? Eu não sei. Tornaste-te nisto que vejo? Neste ser sem fundo? Sem calor? Sem emoção? Não, calma. Emoção, essa tu tens. Eu sei que sim. Por mais que mudes, eu conheço-te. Melhor que muitos. Deixaste penetrar demasiado em ti, para não te conhecer melhor do que conheço a mim mesma. Vi demasiada dor nos teus olhos, para a deixar de reconhecer assim. Vi demasiada culpa, para a esquecer desta maneira. Culpa. Que palavra. Tu sente-la? Talvez sintas. Não sei. A culpa foi tua? Sim, muito provavelmente. E desculpa por isto. Desculpa por te culpar. Desculpa por te fazer isto. Desculpa por não ser forte para ultrapassar isto. Eu recordo-me, sabes? Todos os dias da minha vida desde que partiste. Mas não choro. Não, isso não. Já não consigo. Porque o vazio é tão fundo, que nem água tem. Está seco, essa parte de mim, sem vida, sem emoção, essa parte grita por tudo que voltes mas tu não voltas. Tu não vais voltar. Jamais. Eu sei. E tento convencer essa parte de mim. Não consigo. Mais uma vez, desculpa. Mais uma vez, perdoa-me. Porque eu estou a tentar ser forte, como me ensinaste. Porque sim, tu não me deste só dor. Aprendi muito contigo. Será que aprendeste alguma coisa comigo? Eu não sei. Já poucas coisas são as que sei sobre ti. Acima de tudo, eu quero que sejas feliz. E desculpa-me, por não te conseguir perdoar.