segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O mar é fiel 20*

- Lua, podes abrir a porta?
Arrasto-me pelas escadas abaixo e deixo-o entrar, com a luz a encadear-me a visão. As minhas pernas falham e tenho de me agarrar ao Frederico para não cair.
- O que raio se passa contigo?
- A festa foi demais.. - murmuro enquanto me encosto a ele.
- Lua, precisamos de falar.
Por muito pouco funcional que a minha cabeça esteja neste momento, apercebo-me no tom de voz dele e tento manter-me focada.
- O que se passa?
- O que se passa? Já viste bem o teu jardim?
Olho para ele e vejo-lhe o ar meio zangado meio preocupado pelo que me dirijo lá fora, com a mão a proteger os olhos. Levo algum tempo até me adaptar à luz, mas quando consigo, entendo o que ele quer dizer. O relvado é uma mistura de garrafas de bebida e cigarros por todo o lado. A noite de ontem tinha sido demais.
- Agora deste para fumar foi?
- O quê? Não - é mentira, tu sabes.
Ele nem responde. Vira-me costas, entra em casa e sobe pelas escadas a cima. Faço um esforço para o acompanhar e quando chego ao meu quarto, ele está a revirar-me as gavetas, as malas, tudo. 
- O que é que pensas que estás a fazer? Pára com isso!
- Se me vais mentir, então tenho de arranjar provas.
- Pára com isso Frederico, não tens direito nenhum de mexer nas minhas coisas. 
Ele ignora-me e eu acabo por perder as forças que ainda tenho. Encosto-me à parede, a tremer por todos os lado. Ele vai descobrir. 
Subitamente, ele pára. Um arrepio percorre-me a espinha e eu sei o que vai acontecer a seguir. O estômago revolve-se. 
- Nunca pensei que tivesses de me mentir. 
- Eu..
Ele vira-se de repente, tão depressa que me assusta.
- Tu o quê? Tu escondeste-me isto. Tu mentiste-me quando te fiz uma pergunta bem direta. Tu mudaste, eu já não te conheço, já não vejo a pessoa que conhecia há um ano e meio. Já não és a mesma.
- Sou, sou sim, deixa-me explicar, por favor..
- Explicar o quê? Tu fumas e nunca me contaste. Pensas que sou estúpido? Sempre a comeres pastilhas, a tentares disfarçar com a desculpa 'estava ao pé de amigos'. Eu não sou burro. Mas tu fizeste de mim um. Desde quando é que isto dura?
- Desde a festa dos caloiros.. - a minha voz mal se ouve; tenho um nó tão grande na garganta e as lágrimas estão cada vez mais próximas.
- Isso foi à quase 3 meses. Tu andas-me a mentir à três meses.
- Tu é que insistis-te comigo para ir! 'Precisas de fazer amizades' foi o que tu disseste!
- Porque pensei que tu fosses crescidinha o suficiente para não te meteres nisto. Tu sais todas as noites, e de manhã estás sempre de ressaca. Sempre. 
- Estás a fazer uma tempestade num copo de água, qual é o mal do que eu tenho andando a fazer?
- Tu não entendes pois não? - oiço-lhe a voz magoada, o que me magoa a mim também - tu mentiste-me. Mentiste-me, escondeste-me coisas. Qual foi a última vez que estivemos juntos em condições? Quando é que foi a última vez que fizeste alguma esforço para estar comigo?
Dou voltas e voltas à cabeça mas é verdade que não temos um momento só nosso quase desde o verão. Era verdade, e eu sei-lo. Eu não tinha feito qualquer esforço para estar com ele, tinha-o evitado pois não queria que ele notasse nas minhas mudanças. Eu não queria.
- Deixa estar. Não vale a pena, pois não? Quer dizer, tu agora és uma universitária, tens festas, álcool, tabaco. Não precisas de mim.
- Não foi isso que eu..
- Não precisas, entendes? Não precisas de dizê-lo. Os teus atos falam por ti. 
Neste momento já ele tem lágrimas grossas a escorrerem pela cara abaixo, tal como eu.
- Frederico..
- Não vale a pena, Eu já não te conheço. Eu já não sei quem tu és. Simplesmente tornaste-te num estranha. Num desconhecida. Assim não. Não dá. Desculpa, mas não consigo. Acabou.
Ele sai do quarto e oiço a descer as escadas.
Vai atrás dele. 
Mas eu não consigo. Não consigo andar, não consigo mexer nenhum músculo, nem sequer organizar os pensamentos. Sinto-me feita de chumbo, e quando realmente entendo o que acabou de acontecer, sinto uma dor lancinante no peito, que me faz quebrar em lágrimas.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O mar é fiel 19*

Se há coisa da qual penso nunca ser capaz de me cansar, é disto. O entusiasmo de não saber onde vamos, quando vamos. De não ter o amanhã planeado, de viver sem preocupações, de acordar todos os dias num lugar diferente, com uma vista nunca igual. Nada de monótono, ou aborrecido, apenas o inesperado. O prazer de conhecer o mundo e de o deixar conhecer-me. Estou feliz. Sinto-me livre, quase com quando nadava no mar. Quase. Não ter obrigações, apenas aproveitar o dia até cair para o lado.
Com ele. Sempre com ele, com a sua presença, em espírito e corpo. Acordar ao lado dele. Por vezes ele contempla-me, noutras ainda dorme. Aí, eu fico a vê-lo. Observar o seu peito a subir e a descer, sentir o seu batimento cardíaco nos meus dedos. Com o cabelo despenteado, sem qualquer tipo de máscara ou proteção. Apenas ele. Frágil e vulnerável, tal como me tinha dado a conhecer. O meu pequeno grande sol, que me acompanhava o dia todo, que me fazia rir até doer a barriga. Que me levava às cavalitas sempre que o passeio excedia aquilo que os meus pés aguentavam. Que me dizia cinco vezes à hora 'Lua, o sol está muito forte e tu és branquíssima, tens de por mais protetor'. E que há noite, era a minha melhor almofada e aquecimento. Que por vezes, cantava até eu adormecer. Sabia bem. Preenchia-me o meu pequeno coração e fazia-me querer mais. Mais dele, mais de nós.
- Estás bem, Lua?
- Porque não haveria de estar?
- Estás muito calada - beija-me - e quieta, pensativa.
- Estava só a pensar.
- Em mim? - ele cola-se a mim e roça o nariz na minha cara; sinto-lhe a respiração que causa um ardor nas minhas bochechas e borboletas na barriga.
- Quem sabe, talvez - respondo, com a respiração entrecortada.
- Aposto que era - o seus lábios estão quase nos meus.
- Não és nada convencido deixa-te estar - digo, trocista.
- Ai é? - ele afasta-se - então hoje o convencido já não te toca mais.
- E eu com isso - olho para para o outro lado do parque, parecendo indiferente.
- És má.
Não aguento sem rir. A voz dele lembra-me os das crianças pequenas quando se zangam com o amigo, ou neste caso, a amiga. Quando olho para ele, continua amuado sem sequer mostrar um sorriso, por isso, decido inclinar-me e beijá-lo, mesmo nos lábios. Acende-se um fogo dentro de mim, que jamais quero ver extinto. Ele retorna o beijo e eu sinto uma das suas mãos na minha anca a puxar-me para si, enquanto a outra está no meu pescoço. 
- Eu sabia que não me conseguirias resistir - disse, num murmúrio - é impossível resistir-me.
O ar presunçoso dele dá-me vontade de lhe bater e de o mandá-lo para longe. Mas o problema daquilo que ele disse é que ele sabe que é verdade. Jamais lhe conseguiria resistir, por isso, continuo a beijá-lo, ignorando o resto do mundo. 
- Sabes que mais tarde ou mais cedo vamos ter de voltar, não sabes? - pergunta, quebrando o momento.
Abano a cabeça e inspiro profundamente o ar da noite. 
- Não falemos disso, por favor - peço-lhe - não quero estragar momento. Amanhã ou depois logo vemos isso. Hoje.. simplesmente deixa assim, pode ser?
- Sim pode - diz - seus desejos, são ordens.
- Que parvo - sorrio e encosto-me ao braço dele - para além que daqui a dois dias fazemos 1 ano. Acho que é mais do que motivos para esquecer tudo, ou não?
- Concordo. Onde queres ir amanhã?
- Já estou onde quero estar, Frederico - e fecho os olhos; sei que é verdade, estou precisamente onde preciso de estar.
- Neste parque de campismo reles? - parece surpreendido.
- Não, nada disso.
- Então?
Não digo nada. Com o tempo, ele entenderá.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O mar é fiel 18*

- Vamos onde Frederico?
- Não sei, onde queres ir?
- Não sei..
Porque é verdade, não sei. Nunca saí da minha cidade, mais propriamente  da minha zona, pois até a minha cidade tinha sido pouco explorada por mim. Claro que tenho sítios onde desejo ir, como os Estados Unidos ou Austrália, mas como apenas temos um carro, não poderei ir, para já, a nenhum deles. É quase verão e tenho a certeza que uns dias, ou talvez semanas, fora é o que mais preciso depois deste ano. O Frederico, supostamente, ia trabalhar este verão, como sempre, mas certo dia, apareceu lá em casa com 'uma surpresa', como ele lhe chamou. 
- Sei que não é nada demais - disse, ao olhar para o carro estacionado à minha porta, que embora não fosse recente, também não era velho - mas pensei que pudéssemos escapar ao drama que se instalou durante um bocado, e um veículo talvez fosse uma boa ajuda..
Portanto, foi uma escolha fácil de fazer: preparar as coisas e partir. Para onde, isso era mais complicado. Pelo menos, para mim.
- É simples de escolher, então. 
Ele encosta à beira da estrada, pega no mapa e sai. Eu sigo-o e vejo-o abrir a folha pelo capô do carro. 
- Fecha os olhos Lua. 
- Porquê? - o que é que ele esta a fazer? Estamos no meio de nenhures, há carroças e tratores a passar de um lado para o outro. Que é que ele tinha em mente?
- Não confias em mim? - pergunta; os olhos dele brilham tanto quanto o sol por cima de nós, está feliz, tão feliz, pelo que decido fazer-lhe a vontade. Fecho os olhos e sinto as mãos dele enquanto me dirige não sei bem para aonde. Ele segura na minha mão e passa-a pelo papel. 
- Quando quiseres paras. É para esse sitio, debaixo do teu dedo, que vamos. 
Sorrio. É uma sensação de poder, mesmo que pena. E logo depois de sentir isto, sinto-me parva. O que me faz rir ainda mais. 
- O que é que tem piada?
- Nada, nada.
- Anda lá, despacha-te - consigo ouvir-lhe o sorriso na voz - queres acampar aqui é?
- Era uma boa ideia.
Oiço-o a rir e não aguento e riu-me também.
- Lua, escolhe lá o sítio, temos de ir.
- Quem espera sempre alcança, menino Frederico.
- Eu tenho fome Lua, portanto, tens de te despachar. 
Começo a demorar mais tempo de propósito. Gosto disto, gosto da sensação de tempo, gosto da sensação de liberdade. Sinto-me bem com isso.
- Aqui. É para aqui que vamos.
Ele olha para o ponto que assinalei.
- Boa escolha, gostei.
Abro os olhos.
- Não tens de gostar, tens de obedecer - e dirijo-lhe um sorriso de orelha a orelha.
- É? É?
- Não, Frederico..
Ele manda-me ao chão e senta-se em cima de mim.
- Sai daqui, deixa-me levantar - grito-lhe por entre risos.
- Pede por favor.
- Não, eu é que mando, sai, tu
- Só quando pedires por favor e é melhor despachares-te, as formigas adoraram o teu cabelo - diz, com um ar trocista.
- Ahh, não, Frederico, olha que eu choro, sai, sai.
- Chora, chora, agora pede por favor, anda.
- Não, nunca.
- Lua..
Suspiro.
- Deixa-me levantar.
- Se..
- Se faz favor - resmungo.
- Linda menina.
- Vais pagá-las.