Porque tudo é incerto. Porque tudo muda. Porque nada se mantém. Porque seguramos o vazio, na esperança que nos traga o tudo. Porque nos agarramos ao nada, na esperança de que ele nos agarre de volta. Porque nos resguardamos no silêncio, na esperança de que alguém nos oiça. Porque ouvimos, na esperança que um dia nos ouçam. Porque nos calamos, na esperança de um dia falar. Porque paramos, na esperança de um dia agir. Porque nos contemos, na esperança de que alguém note. Porque ficamos, na esperança de um dia ir. Porque sonhamos, na esperança de um dia alcançar. Porque desejamos ser, na esperança de um dia lá chegar. Porque queremos, porque fomos, porque seremos. Porque isto. Porque aquilo. Porque tudo.
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
É de noite que tudo acalma.
Costumam dizer que é quando tudo piora. Que tudo vem, que tudo ataca. Comigo, não. De noite vem o silêncio. Vem a paz. Não há ruído de fundo, não há carros, não há pessoas, não há alarmes. Não há responsabilidades, não há deveres. O dia acabou. Já foi. Mais um.
O tempo passa mas não passa. O ponteiro do relógio anda, segundo após segundo, porém, é como se estivesse parado. Os minutos não importam. As horas muito menos. O tiqtaq constante nem se ouve. Irrelevante, esquecido.
De noite, posso pensar. Posso reflectir. Posso ser eu, só eu, e mais ninguém. Posso deambular, vaguear, pelos confins da subconsciência, onde a memória se fundiu com a imaginação. Posso ver o irreal. Tocar-lhe, senti-lo entre os dedos, sem que me escape. De noite, simplesmente, posso. Ninguém está acordado para me impedir. Ninguém está acordado para me despertar de um sonho de olhos abertos. Sou só eu.
terça-feira, 14 de junho de 2016
A caneta foi substituída pelo teclado, o papel pela tela, o som do bico a raspar na folha pelo som dos dedos nas teclas. Quase sem darmos por isso, fomos transferidos para um novo mundo, onde as letras aparecem sem as formarmos. Transferimos o que pensamos através de fios, uma extensão do nosso ser que talvez se assemelhe mais a ele do que o caderno que guardamos na prateleira, esquecido e com pó. Uma evolução, diriam os entendidos. Porém, não sabe a evolução. Sabe a uma perda, como a de um colega que mudou de escola. Como a inocência que chegou ao fim, quase sem dar-mos conta.
Devíamos ser mais do que meras sombras. Mais do que vestígios da nossa existência, do que traços que, sem darmos por isso, desaparecem. Devíamos fazer mais, ser mais. Somos capazes de tal. Mas não somos. Somos capazes de falar, de dizer, mas não de agir. Capazes de erguer a voz, mas nem um dedo mexemos. Dormimos bem, ao final do dia, sentimos que fizemos o nosso papel. Que papel é esse? Escreveram-no antes ou depois de nascermos? Ou foi por ele que nascemos?
terça-feira, 19 de abril de 2016
Já era tempo de regressar ao sítio onde fui feliz. Tempo de voltar a ser quem era, de gostar do que gostava, de ouvir o que ouvia, de sentir o que sentia. Tempo de retornar ao eu que sempre conheci. Ao eu que sempre teimou em ser ele mesmo, mas que nunca lhe fez jus. Já era tempo. Era. Não era? Algo me diz que sim. (Algo. Sempre me disseram que era uma palavra vaga, vã, vazia. Parece-me que serve. Se não servir, também não tem mal. Uma consciência inconsciente não se importa, muito menos quer saber.)
domingo, 31 de janeiro de 2016
Saiu de casa, desceu a rua e esperou. Com um cigarro entre os lábios, ficou a ver as pessoas passarem. As crianças corriam de um lado para o outro, as mães carregavam sacos de compras. Passeavam-se cães, namorava-se, e a conversa pairava no ar como se todos os sons de algum modo se completassem.
Ela esperava a seu lado. Calada, quase de modo imperceptível.
O autocarro chegou e eles entraram. Sentaram-se junto à janela, e limitaram-se a observar o exterior. A multidão movimentava-se passeio fora, os carros guinavam, os condutores gritavam. Mais um fim de dia. Tal como todos os outros. O desejo comum de se regressar a casa, ao sossego das quatro paredes, para o tal merecido e ansiado descanso. O veiculo seguiu estrada fora, subindo a avenida, virando para um lado e depois para o outro, parando para carregar e descarregar, no típico pára arranca da hora de ponta. Passado um longo bocado, chegaram ao destino pretendido. Um lugar tão igual ao lugar de onde partiram, com as suas pessoas a subirem e descerem a rua e os seus carros a buzinar e os seus condutores a protestar.
Com o passo de quem não tem praça, começaram a andar. Ela seguia agarrada a ele, num silêncio que se prolongava desde o início. Qual a necessidade de se falar, quando não havia nada que valia o esforço de ser dito?
Chegaram a uma casa tão normal como as restantes e entraram. Estava vazia, tão vazia que dir-se-ia que estava inabitada. O que não seria inteiramente mentira, nem tão pouco inteiramente verdade.
Preparam qualquer coisa para comer, e sentaram-se numa manta estendida no chão, uma vez que o sofá há muito que já tinha também ele deixado a habitação. Quando terminaram, aninharam-se e adormeceram.
Foi só no dia seguinte que os primeiros raios de luz o acordou. Ela já lá não estava. Levantou-se, comeu e saiu, percorrendo o mesmo trajecto do dia anterior, desta vez só e sentido contrário.
Chegou a casa.
- Onde passaste a noite? - ao que parece, a mãe tinha passado a sua à espera que ele chegasse.
- Por aí - respondeu-lhe.
A mãe suspirou.
- Já te disse que isto não pode continuar assim.
- Está bem.
Despiu-se, tomou duche, e foi à cozinha para um segundo pequeno almoço.
- Estou a falar a sério - voltou novamente a mãe - não podes continuar a passar a noite em qualquer lado. E se te acontece alguma coisa? Não pode ser, nem me avisas, não nada.
- Prometo que da próxima te aviso.
- Não vai haver próxima vez. Não. Vai.
- Está bem.
Resignado, pegou na mochila e saiu para as aulas. Encontrou-a cá fora à sua espera.
- Deu-te um puxão de orelhas? - perguntou, quase como se o facto a divertisse. Até porque era bem capaz de a divertir.
Ele não lhe respondeu, limitando-se a abraçá-la.
Caminharam em direcção ao liceu. Manhã de aulas, almoço, tarde de aulas. Mais um dia, tão igual aos outros, numa monotonia sem fim.
Depois da escola, decidiram ir passear. Vaguearam por aí, namoraram, riram. Lancharam num café tão à pinha que não era possível respirar sem incomodar o do lado.
- Aposto que aquela disse ao marido que ia lanchar com uma amiga - disse ela.
- Tanto quanto aquele disse à mulher que tinha trabalho até tarde - disse ele.
Quase noite. Levou-a a casa e regressou à dele.
- Vês, mãe? Já estou em casa - disse, mal passou a soleira da porta.
- Se ao menos fosse assim todos os dias - suspirou ela.
Foi para o quarto e estudou até à hora de jantar. Jantou, e depois ligou-lhe. Passavam mais tempo calados do que a falar mas a simples noção da sua presença acalmava-o. E isso, somente isso, era o suficiente.
*
Passou-se um mês, dois meses, cinco meses. A rotina mantinha-se. Uma rotina quase boa, quase sofrível.
- Falei com a tua directora de turma hoje.
- Sim, sobre?
- Ti. Ela disse que não te dás com nenhum dos teus colegas, que passas as aulas sozinho. Se assim o é, com quem é que passas as tardes todas? E todas as noites que passas na rua? Estás com quem?
- Com amigos.
- Que amigos? - insistiu ela.
Apesar de saber que não poderia esconder tudo dela, aquilo chateou-o mais do que o que esperaria.
- Amigos, já disse.
A resposta saiu-lhe seca, áspera.
- Andas metido na droga?
- Não sejas parva.
- E tu não sejas infantil. Tens assim tanta necessidade de me mentir?
Ele calou-se e tal como acontece, nada mais disse, por muito que ela puxasse por ele. Quando finalmente desistiu, ele levantou-se e saiu. Foi a pé até casa dela, ligou-lhe e pediu que ela descesse. Enquanto esperava, acendeu um cigarro.
- O que se passa? - perguntou ela, quando chegou cá abaixo.
- A minha mãe, é o que se passa - murmurou ele, por entre bafos.
Ficaram ali muito tempo, abraçados, com ela a sussurrar pouco mais do que palavras como "já passou" ou "um dia ela percebe".
- O que é que estás a fazer? - o grito sobressaltou de tal modo que deixou cair o cigarro.
- Estás aqui a fazer o quê? - a visão da mãe, pálida, nervosa, quase aterrorizada à sua frente assustou-o ainda mais do que o grito.
- O que é que estás a fazer? Com quem é que estás a falar? E porque é que estás aqui?
Ele manteve-se calado.
- Responde-me. Agora.
Ela tinha desaparecido. Olhou em volta à sua procura, mas não a via em lado nenhum.
- Assustaste-a - acusou-o ele.
- Assustei quem? - a voz da mãe realçava o medo que a trespassava.
- Quem é que havia de ser? Quem é que estava aqui comigo?
- Não estava aqu...
- Estava sim! - gritou ele, e pôs-se a andar às voltas, a chamar por ela. Mas ela não estava em sítio algum.
A mãe tinha-se encostado à parede, demasiado entorpecida para falar, para agir, para sequer raciocinar. Não é possível.
Passado longos minutos, ele desistiu e caiu sentado no passeio, agarrado à cabeça para a impedir de explodir. O silêncio que os rodeava não era quebrado nem pelo som dos pássaros ou do vento. Nada.
- Filho - começou ela - não estava aqui ninguém.
- Estava - insistiu ele - ela estava aqui.
A mãe abanou a cabeça.
- Não, não estava. Eu vi-te, desde que saíste de casa. Não estiveste com ninguém.
- Estive com ela.
- Não estiveste. Ouve...
- Estive - disse ele, num grito que se propagou rua fora, como se isso o torná-se mais verdadeiro - estive e por saber que não acreditarias é que não te contei. Tu não percebes, tu nunca percebes.
- Por favor, ouve o que estás a dizer. Ela mor...
- Não. - desta vez, foi ele quem abanou a cabeça - Não, tu não entendes, ela não morreu.
- Sabes que si..
- Não. - interrompeu-a outra vez.
Ela não sabia o que dizer, o que fazer, como agir. Limitou-se a vê-lo caminhar em círculos, uma, duas, três vezes, até desatar a correr rua fora. Chamou por ele, mas foi em vão. Ele corria e ela corria atrás dele. Ele era, irremediavelmente mais rápido do que ela, e começou a afastar-se, a afastar-se, até não ser mais do que um ponto no espaço. Dizia a si mesmo que se corresse suficientemente rápido a apanhava, a via, e aí, aí tudo ficaria bem, a dor pararia, o mundo acalmava e tudo voltaria a fazer sentido. Porém, por mais que corresse, ela não aparecia. E o mundo deixou de ser o mundo. Evaporou-se à sua volta, as casas, o passeio, o chão. Era só correr. Correr. Correr. E correu. E no fim, o nada.
sábado, 30 de janeiro de 2016
Incapacidade. Poderei dizê-lo? Poderei exprimi-lo? Penso que sim, no entanto lembro-me que não. Porque sei que quando o exprimir, torna-se real. E quando se tornar real, torna-se impossível. Fará sentido? Talvez não. Tal como tudo o resto. Não tem mal. Não foi feito para ter sentido, não foi feito para se perceber. Gostava de dizer que não foi feito para se sentir, mas já aprendi, há muito, que foi. Que não sentir é, também isso, impossível.
Nada mais somos se não rabiscos. Rascunhos incompletos que vagueiam em busca da frase final. Seres deambulantes, por este mundo fora. Não queremos ser só isto, mas é tudo o que somos. Não queremos ficar por aqui, mas é por aqui que ficamos. Uma série infindável de desejos, todos eles quase tão incompletos quanto nós. Mas nem por isso nos resignamos. Nem por isso nos conformamos. Porque conformarmo-nos seria a derrota e essa não a queremos nós por cá. E, portanto, cada dia, cada semana, cada ano, é uma procura sem fim por algo mais, algo mais, algo mais. Até não restar nada sem ser a simples aceitação daquilo que tão simplesmente somos. Daquilo que tão simplesmente nos constitui. A aceitação. De tudo. De tudo o que renegávamos e rejeitávamos. De tudo o que nos repugnava e magoava. De tudo o que nos deixava e partia. De tudo. Não nos traz paz, conforto, sossego. Não nos deixa dormir melhor, não nos deixa viver melhor. Não nos deixa, tão simples assim. Permanece connosco, até mesmo quando desejamos esquecê-la e voltar ao zero. A quando não nos resignávamos. Esses tempos. Bons tempos.
sábado, 16 de janeiro de 2016
Não sei quantas vezes me detenho a pensar nisto. Quanta vez procuro um sentido, por mais pequeno que seja, no meio daquilo que é um emaranhado de momentos. Não sei. Tento desesperadamente agarrar-me ao que um dia foi o presente, ao que um dia foi real. Um dia. Tão longe. Se me perguntassem, diria que nem o vivi desta vez, mas sim noutra qualquer perdida no tempo. No espaço. Irrealidade, irracionalidade, incompreensão. Palavras que descrevem tudo, tão resumida mas completamente. Quando foi que tudo escapou sem sequer dar-mos por isso? Quando foi que tudo deixou de ter senso? Significado? Já nada me diz nada. Quando foi a última vez que disse? Queria, por tudo, lembrar-me. Queria, por tudo, saber. Queria, queria, porém, não consigo. Porque quanto mais queremos saber, menos sabemos. E quando mais nos questionamos, mais fica por responder. Não sei. Mas queria saber.
terça-feira, 17 de novembro de 2015
Um rascunho qualquer
Ela transforma-se em fumo: dissipa-se pelo ar e não retorna. Como se aprisona o fumo? Como contê-lo, impedi-lo de fugir? Descobri como aprisionar tudo, menos a paixão. Ano atrás de ano, e sempre a mesma pergunta, sempre a mesma incógnita que permanece por descobrir. Já arranjaram modo de a desvendar? Maneira de a saber? Era tudo o que necessitava: manter este fumo encarcerado.
Mais um dia. Hoje, apetece-me. Quero. Posso. Todas as oportunidades são minhas. Tenho-as na mão e faço delas o que acho por bem fazer. Tenho medo, mas, no meio de tudo o resto, ele não pesa.
Vem outro. Já não me apetece. Já não quero. Já não posso. Nenhuma é minha e já nada tenho na mão. Não tenho medo, mas isso pesa-me mais do que se tivesse.
O sol volta a nascer, e hoje voltei a ser tudo. Um ciclo vicioso, que se repete interminavelmente. Não lhe consigo ver o fim. Não consigo pôr-lhe um fim.
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Não me lembro.
Não me lembro de escrever. Seja o que for. Não me lembro de tais palavras terem saído de mim, dos meus dedos, ou dos meus lábios. Não me lembro do taqtaq constante das teclas, do sussurrar da minha voz, do raspar da caneta no papel. Por mais que me esforce, nada disso vem ao de cima.
Já lá vão anos. Perdi a conta. Ao tempo que passei entranhada na escrita. Aos textos que dei vida. Aos que deitei fora. Aos que li, reli e pus de lado. Só sei - e que grande só - que foram muitos. Mais do que aqueles que me parece ser possível recordar. Alguns apareceram apenas por breves momentos; momentos suficientes para que me libertasse do peso que me assolava. Outros, ainda hoje os guardo, para que, por mais que a minha mente tente, nunca me esqueça deles. Para que os tenha sempre presentes, comigo, porque foi para isso que eles foram criados. Para me lembrarem do que outrora fui e do que agora sou.
Uns, escrevi-os porque era eu. Porque estava em mim, porque me reconhecia enquanto ser, enquanto pessoa. Outros, nem tanto. Eram-me estranhos, não sabia de onde vinham, de onde apareciam. Mas completavam-me mais do que quaisquer outros. Não era eu; mas era. Provinham de alguém irreconhecível, de alguém tão distante, embora tão perto. E se hoje, ou amanhã, ou depois, me pedirem para os explicar, ser-me-á impossível fazê-lo. Por mais que tente. Por mais que queira.
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Curto.
Se disto dependo, então não há mais que dizer do que isto: seja. Seja disto que o meu corpo sobreviva. Seja disto que tudo se mantenha. Seja disto que viva. Porque disto não me livro.
E se disto é vulgar, indefinido, então, mais uma vez, seja. Porque nem tudo é concreto. E não tem que ser.
sexta-feira, 22 de maio de 2015
De volta.
Decidi escrever. Não sei porquê. Também não preciso. Faço-o por um motivo, ou por dois, ou por três. Mas não os sei. Nem tenho que saber. Escrevo porque é uma necessidade. Uma vontade. Um impulso. Escrevo, porque assim tem que ser. E gosto. Tiro prazer disso. As palavras completam-me de um modo imperceptível, mas fazem-no. Sem elas, não sou nada. Sem elas, nem sei viver. Quem sabe? Eu não. Até hoje não conheci outro modo de partilhar o que sinto. Verbalizar custa; escrever não. Os pensamentos fluem da caneta para o papel, como se fosse essa a sua única função. Não conhecem outro modo de vir ao mundo, se não este. Aprisionados durante tanto tempo, escapam o mais rapidamente possível quando lhes é dada a oportunidade. Não os posso culpar. Ninguém pode. Se em alguém tivermos de depositar a culpa, será em mim, por os ter. Acumulam-se uns em cima dos outros, lutando pelo primeiro lugar, assolando-me a mente, e o que vai restando dela. Não há espaço para todos. E, por isso, aqui os liberto. Ou me liberto. Talvez ambos. Porque, desta vez, se há culpa em mim por os deixar, também a há neles, por quererem ir. Depois existem aqueles que, por muito que se tente tirá-los, teimam em ficar. Ou, quando finalmente os soltamos, regressam, com um filho regressa a casa do pai depois de tantos anos na rua. Ciclo natural de quem pensa: liberta-se do peso de um, ganha o peso de outro, liberta-se do peso deste, e já volta o primeiro, ou outro, para tomar o seu lugar, numa cadeia infinita, como os números. Não há que ter a mente vazia, pois essas palavras não combinam, nem em tal se ouve falar. É assim quem tanto se preocupa, de saudável não tem nada, mas também não tem que ter, porque quem pensa tanto deste mal sofre, é como uma doença da qual não se consegue desembaraçar, uma praga que veio e não se vai. Mas não nos queixemos: isso geraria mais um pensamento, e já não há espaço para ele.
sábado, 23 de agosto de 2014
5*
Ele não acreditava em milagres. Para ele, tudo isso era algo à qual as pessoas se agarravam quando não conseguiam encontrar uma explicação para o que acontecia. Ele, porém, sabia bem os motivos pelo qual as coisas aconteciam.
As últimas semanas tinham sido estranhamente boas e tinham passado mais rápido do que ele se apercebera. Tudo lhe parecera mais fácil. Mais leve. As aulas tornaram-se mais fáceis de aguentar e se alguém o olhava de lado ou mandava algum comentário, ele parecia nem notar. Levantar-se de manhã já não custava como dantes e havia quase uma vontade de sair de casa e viver o dia-a-dia. Apesar de nem tudo estar como ele quereria, Rui sentia que aquela mudança, apesar de aterradora a inicio, lhe tinha feito melhor do que aquilo que o seu lado independente e desconfiado gostava de admitir.
Quase todos os dias estava com ela. No princípio, apenas depois das aulas mas depressa começaram a estar juntos durante os intervalos, horas de almoço ou até mesmo quando algum professor faltava. Estudavam juntos, faziam par em quase tudo o que era trabalho de grupo. Os amigos dela, contudo, pareciam não partilhar do entusiasmo deles sobre a relação que se estava a originar. Ao contrário de Rui, Sara dava-se com quase meia escola e era amiga de toda a gente. Para muitos, vê-la com o rapaz do fundo da sala que não fala com ninguém era não só absurdo como não fazia qualquer tipo de sentido. Se ela concordava com eles, não o mostrava. Pelo contrário.
Apesar de reservado, ele dava por si a contar-lhe coisas que há muito tinha trancado num cantinho da sua mente. Coisas privadas que nem a ele mesmo dava permissão para vasculhar. Ela ouvia. Podia ouvir durante horas, sem nunca o interromper. Quando olhava para ela, Rui apanhava-a a fixá-lo como se estivesse a beber cada palavra que ele dizia. Sempre achara que não tinha muito para dizer. No entanto, mesmo depois de todo o tempo que passavam juntos e tudo o que falavam, ele chegava sempre à conclusão de que ainda havia mais para dizer. Muito mais.
Com Sara era igual. Ela falava sobre tudo. Por vezes, eram simples coisas como músicas que gostava ou sítios onde tinha ido. Noutras, eram conversas mais profundas às quais ele raramente sabia como reagir. Ela, todavia, sabia sempre como reagir. E quando ele lhe aparecia à frente magoado ou dorido, Sara nunca acreditava nos motivos que ele lhe dava para ter ficado naquele estado.
Era fim do dia e eles tinham aproveitado o facto de terem tido tarde livre para irem passear. Estavam a andar quando ele parou de repente.
- O que foi? - perguntou-lhe ela.
- Nada.
- Nada?
- Sim, nada. Só..
Sara olhou para ele, à espera de resposta.
- Está um pôr do sol tão lindo, não podíamos ficar simplesmente a vê-lo?
Ela esboçou um sorriso.
- Que lindo, o meu menino tem um lado romântico que eu nem sabia que existia.
- Okay, esquece - disse ele com um suspiro - continuemos então.
E recomeçou a andar. Ela porém abraçou por trás o que o fez soltar um grito de dor e dobrar-se.
- O que foi? - A voz de Sara soou-lhe alarmada, assustada até.
- Nada - mentiu ele, tentando endireitar-se, mas ela não se deixou ficar.
- Se não fosse nada não terias gritado Rui.
- Foi só.. Com demasiada força.
- Porque eu tenho uma força tremenda, realmente.
Ele não lhe respondeu e novamente recomeçou a andar porém ela levantou-lhe a camisola antes de ele a poder impedir. O que viu deixou-a horrorizada.
- Rui.. - a voz dela era pouco mais do que um murmúrio.
- Não é nada Sara, a sério. - disse ele voltando-se para ela.
- Nada? Tens as costas todas negras, como é que podes dizer que é nada?
- Eu cai.
Ela não vai acreditar nisso, disse algo dentro dele. Mas ele não podia contar-lhe a verdade. Não queria. E isso sim, era mais forte do que ele.
- Não me mintas, sabes bem que não foi isso.
- Foi sim.
- Ai sim? E caíste como?
Pensa, ordenou a si mesmo.
- Das escadas. Tropecei num tapete e...
- Rui.
Ele calou-se. Sentia-se culpado pela forma como lhe estava a mentir mas também sabia que se lhe contasse a verdade as coisas só iriam ser piores.
- Se não queres contar-me o que aconteceu, não contes. Mas por favor, não me mintas.
Rui não lhe respondeu. Não sabia o que dizer e mesmo que soubesse duvidava que a sua voz funcionasse como devia ser. Limitou-se a dar um ligeiro aceno e a baixar a cabeça. Sem sequer pensar, Sara abraçou-o com uma delicadeza que ele sabia ter sido medida por ela. Isso apenas fez com que ele se sentisse ainda pior consigo mesmo. Ela, porém, não deu mostras de estar magoada ou chateada. Ainda assim, nada melhorava a culpa que sentia. Já era de noite e portanto apanharam o autocarro e voltaram para casa. Ao despedir-se dela, ele não conseguiu deixar de se perguntar a si mesmo se devia ou não contar-lhe tudo. E se sim, como.
terça-feira, 5 de agosto de 2014
4*
A campainha tocou. Rui pegou nos livros, meteu-os dentro da mochila e saiu da sala. Sem se aperceber, Sara seguiu-o. À sua volta instalou-se a confusão; era sexta-feira pelo que o entusiasmo do fim-de-semana pairava no ar. Miúdos a correr de um lado para o outro, portas do cacifo a bater, risos e conversas sob conversas inundavam os corredores. Rui, contudo, não conseguia partilhar daquela felicidade.
Desceu as escadas e apressou-se a chegar ao portão. Já ia a meio da rua quando Sara lhe puxou pelo braço. Ele parou e olhou para trás.
- O teu olho melhorou.. - começou ela.
- Sim - respondeu secamente, talvez até mais do que pretendia. Tentou retomar caminho, mas ela barrou-lhe a passagem.
- Desculpa - apressou-se a dizer - não toco mais no assunto.
Ele permaneceu em silêncio.
- Estava a pensar, ainda é cedo, não queres ir dar uma volta antes de ir para casa?
Estaria a ouvir bem? Uma vozinha dentro de si dizia que aquilo era, de certa, uma brincadeira. Rui não lhe respondeu.
- Então? Queres ou não queres? - insistiu ela.
Queria. E não queria. Nunca tinha tido companhia fosse para o que fosse depois das aulas. Mesmo nos trabalhos de grupo limitavam-se a dar-lhe qualquer coisa para a fazer e entregar depois. Uma partezinha de si queria dizer que sim mas outra, demasiado grande, demasiado imponente, queria dizer que não. Sem pensar, sequer, as palavras saíram-lhe da boca:
- Tenho demasiados trabalhos de casa e estava a pensar em pô-los em dia...
Ao contrário do que julgara, ela não se deixou ficar.
- Uau, tenho imensa pontaria - disse - decidi convidar-te logo no dia em que planeaste começar a ser bom aluno.
Ele notou-lhe o sarcasmo na voz e não conseguiu impedir o sorriso que se formou nos seus lábios.
- Isso é um sim? - perguntou Sara.
- Acho que sim..
- Excelente.
Ela deu meia volta e começou a andar. Ele apressou-se a segui-la. Enquanto andavam, Rui observou-a. Não era baixa, mas também não era alta: ficar-lhe-ia mais ou menos pelo nariz. Mesmo com roupas de inverno ele conseguia notar-lhe as curvas do corpo. Não era exageradamente magra mas também não era gorda. ''Era o termo perfeito'', pensou ele. O cabelo castanho claro dava-lhe pelo meio das costas mas se ela o alisasse provavelmente chegaria ao fundo; ainda assim estava cuidado, e não se via pontas espigadas nem sinais de desgaste. O seu andar era delicado e se ele não a estivesse a ver não diria que ela estava ali.
Sara voltou-se de repente.
- Tu não gostas lá muito de falar, pois não?
Aquilo surpreendeu-o.
- Depende. Mas não, por norma não.
- É pena - disse ela e continuou a andar.
- Porquê? - inquiriu ele, desta vez caminhando a seu lado.
Sara encolheu os ombros:
- Pareces ser alguém com quem se pode conversar.
- Nem por isso.
- Tenho a certeza que és.
- Se eu fosse a ti não tinha.
- Infelizmente, para ti, não sou, não é? - ela olhou para ele e dirigiu-lhe o maior dos sorrisos.
Ele não lhe respondeu e por uns momentos ninguém falou. Chegaram a um pequeno parque e sentaram-se num banco. A tarde era tudo menos convidativa a espaços abertos e por isso o local estava vazio. Sara estremeceu com um arrepio. Apesar de quase conseguir adivinhar a resposta, Rui perguntou-lhe:
- Estás com frio?
- Não - respondeu-lhe ela. Porém, aconchegou melhor o casaco em volta do corpo.
Ele perguntou a si mesmo se devia fazer algo para a aquecer, talvez abraçá-la, contudo esta ideia paralisou-o e portanto acabou por não fazer nada.
- Já tinhas vindo aqui?
- Não - admitiu ele - costumo ir para sítios mais distantes.
- Talvez um dia possamos ir a um desses sítios.
- Tens a certeza que queres ir comigo seja onde for?
- Bem, estou aqui ou não?
Novamente, ele deixou a pergunta sem resposta. Aquilo parecia-lhe irreal e ele não sabia o que lhe dizer.
- Tens razão, eu tenho frio - disse Sara e sem qualquer tipo de aviso, aninhou-se encostada a ele.
Se tivesse sido há uns anos atrás, ele provavelmente ter-se-ia afastado. Se fosse outra pessoa, já teria saído dali para fora. Mas não era há uns anos atrás e não era outra pessoa. Era naquele momento e era Sara e por isso, mesmo sem pensar, ele abraçou-a. Não sabia se ela notara como tremia ou quão acelerada a sua pulsação estava mas se tinha não disse nem fez nada.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Talvez, não sei.
Escrevi um texto. Mas perdi-o. Não sei onde o encontrar e muito menos onde o procurar. Paciência; já lá vai. Talvez seja fria ao dizer isto desta forma ou apenas alguém que não se quer preocupar com algo que a consome. Não sei. Esta é mais uma das coisas que ainda não descobri. São tantas, ou tão poucas, que não as consigo recordar. Novamente, não sei. Sou talvez, um não sei que deambula sem qualquer propósito. Mas também, quem se preocupa? Eu não, com certeza. Ou talvez sem tanta certeza. Cabe a mim perguntar-me a mim mesma se me preocupo, porém não sinto coragem nem força para o fazer. É difícil perguntar-me o que já sei mas não quero saber. É difícil tomar consciência do que já faz parte do meu consciente sem eu mesma querer. Não sei. Estas batalhas que não quero ter cansam-me de forma excessiva, mais até do que qualquer pessoa repara. Até eu, por vezes, deixo de o reparar. Mais uma, menos uma, no fim o resultado será o mesmo. E o mais provável é que seja o pior deles todos. Ou talvez até não. Não sei. Não sei e não quero mais disto. Não quero mais desta incógnita constante que cresce e aumenta sem que alguém a faça parar. Eu não a faço parar. Talvez por fraqueza, talvez por cobardia, talvez por resignação. Não sei. Qualquer uma destas razões parece-me plausível, mas talvez não seja nenhuma dela. Talvez seja outra que encontrarei mais tarde. Mais lá para o fundo do meu caminho. Não sei. No entanto, eis uma questão que não tem qualquer problema em mostrar-se: chegarei a esse fundo? A resposta amedronta, assusta, aterroriza. Escolham a que preferirem. Ou então, não o façam. Nem eu o farei. Porque não sei qual deles sinto. Na verdade, sinto muito pouco. Ou talvez sinta tanto que não sinto nada ao todo. Talvez esteja tudo guardado numa caixa à espera de ser aberta. Ou talvez esteja tudo ao descoberto e eu pura e simplesmente tornei-me imune. Não sei. Como poderei saber? Mais, quererei saber? Ou talvez já saiba. Não sei. Digo-o demasiadas vezes. Porquê? Não sei. Por algum motivo que, juntamente com o meu texto, se perdeu, e eu não sei onde o encontrar e muito menos onde o procurar.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Quarto Vazio
Num quarto completamente vazio, vejo-me reflectida nas paredes de cal nu. No branco mais puro, a minha imagem aparece distorcida, inibida de pudor. Parece algo irreal, como que num sonho que tende a ser um pesadelo. Vejo-me escrita, sem condescendência alguma, numa tinta preta, letra ilegível, que se confunde com pouco mais que um pequeno rabisco em toda a pele. A caneta jaz algures no chão e por mais que me esforce, não a alcanço. Ela rebola pelo azulejo como que numa brincadeira que a diverte, apenas porque pode. O desespero de querer sair daqui já não existe. O pânico de estar fechada numa caixa há muito que foi embora. Neste momento, apenas há uma esperança - ainda que vã - de algum dia conseguir sair daqui. Uma esperança - ainda que pouca - que alguém, algures, saiba onde estou e me tente resgatar. Contudo, o tempo passa, ninguém vem e a esperança vai-se desvanecendo.
Oiço uma voz que é minha, porém, eu não falei. Oiço o meu timbre a desvanecer-se no ar, no entanto, não foi eu que o comecei. Ao olhar, reparo no meu reflexo, sentado, fixado em mim. Desprovido de qualquer emoção, começa a falar. Num disparar de palavras, ataca as poucas defesas que me restam. Tento não ouvir, bloquear aquele som da minha mente, mas ele é mais forte e acaba por vencer. Sento-me, sentido o frio na pele que já perdeu a sua cor, e apenas escuto. Não sei se durante minutos, não sei se durante horas, não sei se durante dias. A noção de tempo já não mora aqui, deixou-me, deixando somente uma desorientação que há muito desisti de consertar.
Ele continua o seu discurso e eu pergunto-me quando ; todavia não me parece que vá acontecer. Isto não é uma pessoa, com necessidades, que precise de descansar. Não. Isto é algo que apenas existe, como um objeto à qual deram o dom de falar mas não o de sentir. Uma coisa, isso sim. A minha mente implora para que tudo acabe, que
Aos poucos, os meus olhos vão-se fechando. As pálpebras esforçam-se por não cair, mas o cansaço é tanto que é quase impossível continuar desperta. O meu corpo cede e a voz vai-se tornando menos nítida, menos clara. Paz, é tudo o que consigo pensar.
Ele continua o seu discurso e eu pergunto-me quando ; todavia não me parece que vá acontecer. Isto não é uma pessoa, com necessidades, que precise de descansar. Não. Isto é algo que apenas existe, como um objeto à qual deram o dom de falar mas não o de sentir. Uma coisa, isso sim. A minha mente implora para que tudo acabe, que
Aos poucos, os meus olhos vão-se fechando. As pálpebras esforçam-se por não cair, mas o cansaço é tanto que é quase impossível continuar desperta. O meu corpo cede e a voz vai-se tornando menos nítida, menos clara. Paz, é tudo o que consigo pensar.
sábado, 16 de novembro de 2013
3*
Acordou no dia seguinte, com um soco na porta. Não se queria levantar, não queria ir para a escola e muito menos queria enfrentar aquele dia. Porém, obrigou-se a sair da cama e a ir tomar duche. Pôs-se à escuta, para tentar reconhecer o barulho de passos mas só conseguir distinguir o silêncio. Desceu as escadas e foi para a casa de banho. Enquanto estava na banheira, sentiu a água a fustigar-lhe os músculos doridos e entorpecidos do cansaço. Quando terminou, enrolou uma toalha à volta da cintura, saiu da banheira e, ao limpar o espelho, viu o seu próprio reflexo. Estava longe de se parecer com os rapazes da sua escola, de ter músculos ou um bronzeado, pelo contrária, era bastante magro e branco, com o corpo sulcado de sardas e cicatrizes. Tentou, tal como muitas vezes antes, sentir algum conforto ao ver-se mas por mais que se esforça-se, não conseguia. Acabou por ir para o quarto, vestiu-se e passado dez minutos já estava na paragem.
O trânsito era caótico e o som constante das buzinas insuportável. Queria fumar um cigarro antes de entrar nas aulas mas tinham acabado e não se sentia com paciência para ir a um café comprar.
Quando se fartou de esperar pelo o autocarro, decidiu ir a pé, pois certamente chegaria lá mais depressa. Tirou o ipod da mala, começou a ouvir música e encaminhou-se para a escola. Por ele passavam idosos, crianças, pais com os filhos, varredores de rua e enquanto ele notava em todos, nenhum notava nele.
Depressa o corpo se começou a queixar com dores, no entanto ele ignorou-as. Continuou a andar, quando sentiu alguém tocar-lhe no braço:
- ..dia, Rui.
Olhou para trás e viu uma rapariga da sua turma a sorrir-lhe. Sara, se não se enganava. Tirou os phones para a cumprimentar, porém, antes de o poder fazer, ela soltou um grito abafado:
- O que é que te aconteceu?
A pergunta surpreendeu-o. Não estava à espera que alguém lho perguntasse, assim tão directamente, como era hábito e costume. Sentiu-se desprevenido, sem resposta.
- Rui?
- Caí das escadas - foi tudo o que conseguiu dizer.
- Caíste das escadas?
Ele confirmou com um gesto e desviou o olhar. Ainda assim, ela não desistiu:
- Meteste-te gelo ao menos? Parece feio..
- Não, não me lembrei.
Mesmo não estando convencida, Sara acabou por deixar o assunto em suspenso:
- Posso-te fazer companhia até à escola ou preferes ir sozinho?
Pela segunda vez, uma simples pergunta apanhou-o de surpresa.
- Sim..
- Então vamos - começou a percorrer a rua e ele seguiu-a.
Durante uns minutos, caiu um silêncio entre os dois. Ele não se sentia capaz de iniciar fosse que diálogo fosse. Ainda se sentia atordoado com o que provavelmente foi a conversa mais longa desde à muito tempo. O à vontade dela deixou-o perplexo. Só quando chegaram à escola é que ela voltou a falar:
- Onde é que te meteste ontem?
Ele olhou para ele, como se não entendesse.
- Ontem, depois da primeira aula, desapareceste. Onde foste?
Ele tinha mesmo notado que eu me foi embora?
- Para casa.
- E caíste das escadas a caminho ou lá?
- Lá.
A campainha soou e eles foram para a sala. Mesmo antes de entrarem, ela olhou para ele e disse:
- Tu bem que tentas, mas não me convences.
sábado, 19 de outubro de 2013
2*
Chegou a casa que, como mal passava das 11 horas, estava vazia. Era constituída por uma sala de jantar, uma sala de estar, uma cozinha e uma casa de banho no andar debaixo e no de cima, ficavam os quartos. O dele ficava no sótão. Tinha apenas alguns móveis velhos e comidos pelo tempo: uma cama, uma armário e algumas estantes. Ao contrário do resto da casa, esta divisão era suja e caótica. Havia todo o tipo de coisas espalhadas pelo chão e eram poucos os dias em que se dava ao trabalho de fazer a cama. Deixou a mala num canto, pôs o ipod a carregar e decidiu aproveitar o raro silêncio que ecoava na enorme moradia devorando mais uns capítulos do livro que iniciara à poucos dias.
Adorava ler. Era a sua escapatória do dia-a-dia, da realidade que o consumia e nunca se cansava de o fazer. Adorava passar serões agarrado a um livro. Adorava a sensação de fazer parte da história e vivia-a quase tanto como a viviam as personagens. Deixava-se levar pelo enredo, pelas emoções descritas ao longo das páginas. Os livros davam-lhe uma nova perspectiva do mundo em que vivia, quer fosse ela positiva ou negativa. Para ele, isso era mais do que qualquer outra coisa que alguma vez lhe tinham dado.
Só parou quando já estava demasiado escuro para conseguir distinguir fosse o que fosse e por isso deixou o livro e decidiu ir ouvir um pouco de música. Não havia luz no sótão e também ninguém achou necessário haver. Tanto se lhe dava, o escuro não lhe metia medo, pelo contrário, fazia-o sentir-se bem e para além disso, já estava habituado. Deitou-se na cama e deixou que a mente passeasse por onde queria ir até chegar a várias memórias que não queria recordar mas que agora não conseguia evitar. Eram tantas, e vinham sem qualquer aviso.
Acabou por adormecer e só acordou passado um pouco, quando ouviu a porta de baixo a bater e, de seguida, gritos. Instintivamente sentou-se, a tremer, e o coração começou a bater com a um ritmo alucinante. Escutou com mais atenção e ouviu o andar pesado de alguém que atravessava a entrada.
Tem calma, não deve ser nada, não vai acontecer nada.
Mas mesmo assim não conseguia acalmar-se. A respiração começou a alterar-se e quando notou já estava a ofegar. Esforçou-se por não chorar, não queria parecer fraco, mas não conseguia, nada no corpo lhe obedecia e acabou por sentir as lágrimas a molharem-lhe as bochechas.
- Onde é que está aquele fedelho?
Sentiu-se paralisar pelo medo. Não reagia, não falava, apenas tremia e chorava, sem conseguir parar.
- Deve estar lá em cima.
Queira mexer-se, fazer alguma coisa, evitar o que estava para acontecer mas não conseguia, não conseguia fazer nada, somente ficar ali sentado à espera de algo que nem ele sabia o que era.
Ouviu alguns passos, enquanto alguém subia as escadas e aí começou o seu pesadelo.
sábado, 28 de setembro de 2013
1*
Com a monotonia de mais um dia, ele tirou um cigarro do maço, colocou-o entre os lábios e, com as mãos a proteger a chama da leve brisa que já se fazia sentir, acendeu-o. Encostou-se à paragem, observando as pessoas que corriam, apressadas para chegar ao local que pretendiam ou atrasadas para chegar ao trabalho. Ridículo, era tudo o que conseguia pensar perante aquela pressa que impregnava a rua.
Deu um último bafo no cigarro e mandou para o chão, calcando-o. A paragem ia enchendo à medida que o tempo passava e lá ao fundo, viu-se o autocarro chegar. Vinha já cheio e ainda mais ficou depois de toda aquela gente entrar. Se ele já não gostava de autocarros, nos dias de frio passava a odiá-los. Passava mais de 20 minutos em pé, espremido contra uns quantos estranhos que não sabiam distinguir o chão dos pés das pessoas. Não conseguia esperar pelo dia em que pudesse finalmente tirar a carta. Quando finalmente chegou ao seu destino, já estava atrasado, mas nem por isso acelerou o passo para alcançar o portão da escola. Seguiu pelo passeio, atravessou o pátio e subiu as escadas. Ao abrir a porta já estavam a dar matéria, mas não se importou.
- Já tem falta - disse-lhe o professor, ao vê-lo entrar.
Ele não lhe deu nenhuma resposta. Foi sentar-se na única mesa livre, ao fundo da sala e ao lado da janela e tirou os cadernos e livros. Ignorou tudo o resto à sua volta e pôs-se a contemplar o exterior. Adorava ver as folhas a voarem com o vento e os ramos das árvores a agitarem-se com o mesmo. Adorava ver as cores castanhas misturarem-se com o verde. A bem dizer, adorava o Outono mais do que adorava qualquer outra estação do ano. A sua calma, a sua serenidade. Traziam-lhe boas memórias. Daquelas que ele queria esquecer mas ao mesmo tempo recordar. Daquelas que ele nem sabia se eram memórias de todo. Talvez não o fossem. Talvez fossem fragmentos da sua imaginação. Eram, porém, bem melhores do que aquelas que ele realmente tinha.
O toque da campainha despertou-o desta nostalgia. Arrumou as suas coisas e saiu. Foi ao cacifo buscar os livros para a próxima hora e já os tinha quando uma multidão encheu o espaço. Os alunos passavam, a rir, abraçados uns aos outros, a falarem sobre tudo e mais alguma coisa que pudesse ser traduzido em palavras. Irritado por toda aquela confusão de vozes e gritos, saiu dali e acabou por se ir sentar encostado à parede, o mais distante possível de toda a agitação. Tirou o ipod da mala e pôs-se a ouvir música até tocar. Sentiu-se mais calmo e acabou por esquecer todo aquele alvoroço. Deixou-se levar pela melodia e e enroscou-se em si mesmo por causa do frio que se fazia sentir naquela manhã. Não que lhe fizesse impressão. Antes os frio do que o calor, era o que pensava.
Estava mais cansado do que aquilo que queria admitir e, aos poucos, as pálpebras começaram a pesar-lhe. Foi fechando os olhos, a mente esvaziou-se-lhe e antes de notar, já tinha adormecido contra a parede. Acordou, duas horas mais tarde, quando o toque ressoou pela escola. Tinha faltado a duas aulas e o ipod tinha ficado sem bateria. Que se lixe. Levantou-se, pegou na mala e dirigiu-se para a saída da escola. Não vale a pena ir à próxima hora.
Tirou um cigarro, acendeu-o e encostou-se à paragem, à espera que o autocarro chegasse.
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