quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Tenho 11 anos e (...)

Vou-me mudar. Sinto-me tão mal. Estou no parque em frente à minha casa, com o Jaime. Estamos num silêncio tão pesado. Ele mal fala. Isso é mau sinal. O Jaime tem sempre algo a dizer. 
Repentinamente, ele agarra-me a mão e fala numa voz fraca:
- Vais-me telefonar, certo Olivia?
Olho para ele, tem lágrimas nos olhos. Nunca penso que o Jaime pudesse chorar. Ele para mim, é a pessoa mais forte do mundo. Como é possível viver sem ele? Não é.
- Todos os dias Jaime, prometo - chego-me para ele e encosto a cabeça ao ombro dele. Começamos a chorar, os dois, baixo, para as nossas mães lá ao fundo não nos ouvirem. De repente ele levanta-se e tira uma coisa do bolso da camisola. 
- Toma - e mete o pequeno objecto na minha mão. É um colar, com uma ave. É lindo, só porque ter sido dado por ele.
- Obrigada Jaime.
Abraço-o.
Olivia? - é a minha mãe - anda querida, temos de ir embora.
Vamos ter com elas e despeço-me da mãe do Jaime e ele da minha. Enquanto elas se despendem, despedimos-nos nós. Ele chega a sua mão junto à minha e fazemos aquele nosso toque, que é nosso, só nosso e de mais ninguém. Depois ele olho para mim.
- Adeus Olívia. 
Começo a chorar de novo.
- Adeus Jaime.
Entro no carro e ponho o cinto. Da janela consigo-o ver, enquanto o carro se afasta.

sábado, 8 de setembro de 2012

O mar é fiel 9*

Olho pela janela e vejo o mar. Acho que é a única coisa boa nesta casa. O facto de poder ver o mar.
- Menina Gaspar?
Sorrio ao ouvir esta voz. Dona Matilde.
- Estou aqui – grito e vejo-a a aparecer à porta do meu quarto. Podia ser feita de porcelana. Tão frágil que era. Sorri-me e eu retribuo-lhe o sorriso.
- A sua mãe ligou. Teve de ir de emergência à Dinamarca. Sabe como é, coisas de trabalho.
O meu sorriso desvanece-se.
- Claro… - murmuro.
- Oh não fique assim! A sua mãe faz tudo por si, menina.
- Claro claro.
- Bem, acho que vou andando. Quer que passe cá amanhã?
- Não, não, deixa estar. Eu desenrasco-me sozinha.
- Está bem então. Até segunda, menina.
- Até segunda, Dona Matilde.
Oiço a porta da rua fechar-se. Passado um pouco, sou eu quem sai. Encaminho-me para a praia. Adoro o facto de já ser de noite, o facto de a praia já não estar inundada em pessoas barulhentas, em pessoas que não se importam com nada para além das suas vidinhas. 
A minha mente voa para o pedido de desculpas. O que vou dizer? Será que ele vai estar lá? Se não estiver, que faço? E se estiver, que lhe digo? Será que ele me vai desculpar? Ou será que não?
Quando lá chego, sinto-me no paraíso. Está praticamente vazia. Um ou outro casal a namorar. Um ou outro grupo de amigos. Nada mais. O bar, lá mais longe, está aberto, mas como a luz não chega aqui, este lado está praticamente deserto.
Mais animada, salto para a areia. Vou até às rochas e começo a trepá-las, com cuidado. Eu ainda mal recuperei dos meus ferimentos de ontem e já me estou a meter nesta aventura de novo. Não posso voltar a cair. Chego à entrada da gruta e sinto a água por debaixo dos meus pés. Não sei o que me deu, vim de ténis. Talvez o meu subconsciente saiba que aquilo não é pavimento para chinelos. Seja como for, começo a atravessar as rochas, com cuidado para não escorregar. 
Chego ao lugar da lagoa, e o meu coração dispara. Ele está ali. Vejo a camisola e os ténis pousados na areia. E agora? 
Olho para ele, dentro de água, que lhe dá pela cintura. Vejo-lhe os músculos das costas, bem definidos. Sinto algo que nunca senti. Não entendo. Que é isto? Só quero ir ao seu encontro. Abraçá-lo. Talvez até, beijá-lo. Beijá-lo? És maluca? Tu nem o conheces! Expulso estes pensamentos da cabeça. Primeiro, tenho de lhe pedir desculpa. E rezar para que ele me desculpe. Tens que ir com calma.
De repente ele vira-se e sorri. Ele sorri-me. Porque o faria? Eu fui tão parva com ele.
- Vieste – diz. Sai da água e vem ter comigo. Estica-me o braço, de modo convidativo. – Vai um mergulho?
Sorrio, sem responder e começo a descalçar-me. Ele fica a observar-me, enquanto tiro a camisola e os calções. Esta noite trouxe bikini. 
Antes sequer, de poder contestar, ele pega-me ao colo e leva-me para dentro da lagoa. O que é isto?
- Pronta? - pergunta-me.
Para?
Mas antes de conseguir, sequer, dizer alguma coisa, caímos os dois dentro de água.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O mar é fiel 8*

Saio de casa e vou diretamente para a praia. Eu odeio ir à praia à tarde, como já disse, mas eu preciso desesperadamente de o ver. Será que quero mesmo encará-lo depois do que fiz? Deixa de ser parva.
Lembro-me da noite passada. Aliás, não penso noutra coisa o caminho todo. Como ele me ajudou.  E eu nem lhe dei hipóteses. Mandei-o logo embora, não o deixei expressar-se, nem lhe dei margem para dúvidas. Que estúpida! 
Quando estou quase a chegar à praia, ainda não sei o que desejo. Será que o quero ver? Será que não? Não sei, não consigo perceber. Sinto-me irritada. Não com ele, comigo. Por ter baixado a guarda. Por o ter deixado ver demasiado. Estúpida casa. Mas acima de tudo, por o ter tratado de uma forma que ele não merecia. Porque por mais motivos que eu tenha para me enervar, nenhum deles me dá permissão para o tratar assim. 
Quando chego à praia, a minha irritação aumenta. Está cheia. Atulhada. De pessoas. Barulhentas. Inspiro várias vezes, tentando acalmar. Olho para o mar. Como é que consegues estar sempre tão calmo? Cheio de pessoas, ele transborda paz. Só barulho. Não há calma. Mas o mar está calmo. Quem me dera conseguir manter a calma como o meu amigo.
Queria ir à gruta, de novo, mas com tanta gente aqui, será impossível não atrair as atenções. E não quero que ninguém descubra o meu pequeno paraíso. O meu pequeno segredo. Meu e dele. E ao recordar isto, recordo também o Frederico. E sinto vontade que ele esteja ali, ao meu lado, naquele momento. Lembro-me do toque dele, enquanto me ajudava a sentar. Enquanto me ajudava a sair daquela gruta. Enquanto tratava das minhas feridas. Enquanto me abraçava para me proteger do frio da noite. E instintivamente, fico mais calma. 
Fico confusa. Só o mar me acalma. Com a sua música. A sua tranquilidade. Mas desta vez não. Foste tão estúpida. Pois foi. Tratei-o mal, quando ele merecia todo o carinho. Carinho que eu estava disposta a dar-lhe. Ele foi bom para mim e eu fiz-lhe aquilo. Desejo de todo o meu coração para que ele volte. Que ele apareça ali. Queria pedir-lhe desculpa. Pedir-lhe perdão.
Suspiro e encaminho-me para a praia, para a beira-mar e comecei a andar sem destino. Descalço-me e pego nos chinelos. Na minha cabeça, começo a imaginar cenários do que pode acontecer. 
A primeira opção, é de nunca mais o ver. Essa opção inicia uma enorme dor no meu peito. Quero vê-lo. Aliás, acho que nunca desejei tanto ver alguém na minha vida. Se eu nunca mais o vir..
Logo depois, a lógica apodera-se de mim. ‘Tenho tanto interesse em manter esta gruta secreta, como tu tens.’ Isso quer dizer que gosta da gruta. Então vai voltar. Sorrio. Se ele vai voltar, então eu também vou voltar. Decido que irei à gruta esta noite, pode ser que ele esteja lá. Ele vai estar. Tenho a certeza.
A minha mente, voa, para o meu problema: pedir desculpa. Nunca tive que pedir desculpa, por uma razão muito simples: nunca fiz amigos. O meu melhor amigo é o mar. Sempre foi. Sempre irá ser. Talvez não sempre. Afasto este pensamento da minha cabeça. De onde é que isto veio? O mar é o meu melhor amigo e ponto.
Concentro-me no meu objetivo. Pedir desculpa. Os cenários são muitos. Uns bons, outros maus. Ele poderá muito não me desculpar. Aliás, é mesmo o mais viável. Ele não me conhece, não sabe quem eu sou. Para ele, fui uma estranha de quem ele cuidou e que o tratou mal. Sou uma parva que ele não quer voltar a ver. E sou, sou mesmo.
Sou tão estúpida. Ele não me vai desculpar. Porque haveria de o fazer? Sinto-me tão mal comigo mesma. Queria dar um mergulho, mas recuso-me a fazê-lo com tanta gente ali a ver, a invadir o meu paraíso.
Vou-me embora. Já não vale a pena ficar aqui. À noite volto. Volto e mergulho. Volto e falo com ele. Volto e peço desculpa.