sábado, 30 de janeiro de 2016

    Nada mais somos se não rabiscos. Rascunhos incompletos que vagueiam em busca da frase final. Seres deambulantes, por este mundo fora. Não queremos ser só isto, mas é tudo o que somos. Não queremos ficar por aqui, mas é por aqui que ficamos. Uma série infindável de desejos, todos eles quase tão incompletos quanto nós. Mas nem por isso nos resignamos. Nem por isso nos conformamos. Porque conformarmo-nos seria a derrota e essa não a queremos nós por cá. E, portanto, cada dia, cada semana, cada ano, é uma procura sem fim por algo mais, algo mais, algo mais. Até não restar nada sem ser a simples aceitação daquilo que tão simplesmente somos. Daquilo que tão simplesmente nos constitui. A aceitação. De tudo. De tudo o que renegávamos e rejeitávamos. De tudo o que nos repugnava e magoava. De tudo o que nos deixava e partia. De tudo. Não nos traz paz, conforto, sossego. Não nos deixa dormir melhor, não nos deixa viver melhor. Não nos deixa, tão simples assim. Permanece connosco, até mesmo quando desejamos esquecê-la e voltar ao zero. A quando não nos resignávamos. Esses tempos. Bons tempos.

sábado, 16 de janeiro de 2016

    Não sei quantas vezes me detenho a pensar nisto. Quanta vez procuro um sentido, por mais pequeno que seja, no meio daquilo que é um emaranhado de momentos. Não sei. Tento desesperadamente agarrar-me ao que um dia foi o presente, ao que um dia foi real. Um dia. Tão longe. Se me perguntassem, diria que nem o vivi desta vez, mas sim noutra qualquer perdida no tempo. No espaço. Irrealidade, irracionalidade, incompreensão. Palavras que descrevem tudo, tão resumida mas completamente. Quando foi que tudo escapou sem sequer dar-mos por isso? Quando foi que tudo deixou de ter senso? Significado? Já nada me diz nada. Quando foi a última vez que disse? Queria, por tudo, lembrar-me. Queria, por tudo, saber. Queria, queria, porém, não consigo. Porque quanto mais queremos saber, menos sabemos. E quando mais nos questionamos, mais fica por responder. Não sei. Mas queria saber.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Um rascunho qualquer

    Ela transforma-se em fumo: dissipa-se pelo ar e não retorna. Como se aprisona o fumo? Como contê-lo, impedi-lo de fugir? Descobri como aprisionar tudo, menos a paixão. Ano atrás de ano, e sempre a mesma pergunta, sempre a mesma incógnita que permanece por descobrir. Já arranjaram modo de a desvendar? Maneira de a saber? Era tudo o que necessitava: manter este fumo encarcerado.
    Mais um dia. Hoje, apetece-me. Quero. Posso. Todas as oportunidades são minhas. Tenho-as na mão e faço delas o que acho por bem fazer. Tenho medo, mas, no meio de tudo o resto, ele não pesa. 
Vem outro. Já não me apetece. Já não quero. Já não posso. Nenhuma é minha e já nada tenho na mão. Não tenho medo, mas isso pesa-me mais do que se tivesse.
    O sol volta a nascer, e hoje voltei a ser tudo. Um ciclo vicioso, que se repete interminavelmente. Não lhe consigo ver o fim. Não consigo pôr-lhe um fim.