sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Tenho 12 anos e (...)

Sentir falta faz parte.
- Sim, está tudo bem e contigo?
É o que digo todos os dias.
- Claro que ando bem-disposta Jaime.
Quando de manhã quando acordo sem energia. 
- Sim, a escola vai bem.
Quando chego à escola e desabo por ele não estar lá. 
- Tenho que prestar, tenho que ter boas notas. E tu? Como te estás a safar sem mim?
Quando entro na sala e mal consigo prestar atenção porque não tenho o seu calor reconfortante sentado ao meu lado. 
- Eu sou sempre forte Jaime, como tu me ensinaste.
Quando me faço de forte, há noite, quando eu e ele falamos à noite, para tentar matar esta saudade que se meteu entre nós. 
- Sim, também tenho de ir, já é tarde. Beijinhos, Jaime. Também gosto muito de ti.
E quando depois, choro por não o ter comigo. 
Vou para o meu quarto.
Não conheço ninguém aqui, nem passado um ano as coisas melhoraram. Continuo a não conhecer ninguém. A não me dar com ninguém. Lembro-me da minha antiga escola. Para além do Jaime, não tinha amigos. Ele tinha. Muitos. Talvez se esteja a dar bem, sem mim.
Não. Ele não consegue. És a sua protegida, lembraste?
E uma mão vai instintivamente agarrar o colar que ele me deu. 
Ele tem pessoas que cuidam dele. E eu terei de cuidar de mim. Tem que ser.
Vou fazer um esforço, vou-me empenhar.
Choro ainda mais e abraço a almofada. Isto é tão doloroso.

O mar é fiel 11*

O tempo passa a uma velocidade estrondosa. Ainda ontem estava irritada por ser verão e hoje já tenho de vestir um casaco para vir até à praia. É, realmente, incrível. Dantes, durante o verão, era eu que tinha de esperar por Frederico, todos os dias. Ia para a praia, e ficava sentada na areia, a vê-lo, simplesmente a vê-lo a fazer o seu trabalho. Não o podia distrair, afinal de contas, ele era o nadador-salvador, tinha de ter atenção. Então ficava ali, a observar cada traço do seu corpo, a escutar o mar, a desejar arduamente que a noite chegasse. Que pudéssemos ir para a nossa gruta. Nadar. Rir. Conversar. E conversávamos, muito mesmo. Ele contava-me coisas sobre o seu passado, os seus 'amigos' e colegas, a sua família. Eu tentava falar de mim, mas era difícil, pelo que, normalmente, falávamos sempre dele. 
Agora, de inverno, durante as aulas, já não é assim. Entre aulas, testes, trabalhos de grupo e trabalhos de casa, é difícil estar com ele. Por norma, levo os livros e cadernos e vamos os dois para a gruta, sozinhos e ele fica a ver-me a estudar, sem proferir um único som. Ele consegue ficar calado durante muito tempo. Tenta sempre conciliar os seus trabalhos com o meu horário, mas quando não consegue, troco o nosso paraíso pelo meu quarto.  
O grande problema e o nosso maior inimigo, é o tempo. Temos tido sorte, tem estado sol e algum vento, só um ou outro dia de chuva. Quando assim é, vamos para o café do velho rezingão. Ficamos lá numa mesa ao canto e ninguém dá por nós nem nós por ninguém. 
A cada dia que passa, a nossa relação melhora. Somos amigos. Recordo-me disto, todos os dias. Para que fique claro. Mas custa tanto. O desejo de avançar para algo mais é devastador. Mas tenho tanto medo. Pela primeira vez, estou a aproximar-me de um ser-humano. Pela primeira vez, estou a confiar em alguém. Alguém que não o mar. Ah, o mar. Tenho tantas saudades dele. Apesar de passar o tempo quase todo na pequena gruta, já não tenho uma ligação concreta com o mar à muito. Um momento só comigo e com ele, agora passo o dia com Frederico…
- LUA!
O grito assusta-me de tal forma, que salto e acabo por cair no passeio. Olho em volta e vejo a minha mãe. Oh não, por favor, hoje não.
- Anda para dentro, temos muito que falar – e dito isto, volta-me as costas e entra dentro de casa.
- Obrigadinha pela ajuda – resmungo, entre dentes, levantando-me. Entro em casa e fecho a porta atrás de mim.
- O que é que foi?
- Olha o tom, minha menina, sou tua mãe, exijo respeito.
Sinto a resposta presa na garganta, mas esforço-me por a deixar lá.
- Gostaria de saber, se não for muito incómodo, porque raio não estavas tu em casa quando cheguei!
Senti a raiva a invadir-me.
- AS PESSOAS NÃO VÃO FICAR ETERNAMENTE À TUA ESPERA SABIAS?
- Olha o tom, já te disse. Falei com a empregada, ela diz que tu só vens a casa dormir, o que é que andas a fazer afinal?
- A empregada tem nome: é Dona Matilde. E se passasses mais tempo aqui do que fechada em aviões, saberias!
- Eu exijo saber!
- Não tens esse direito! Vens a casa uma vez em cada três meses e já pensas que mandas? 
- Até teres 18 anos, quem manda aqui sou eu por mais que tu queiras ou não.
- Quero lá saber. Eu tenho boas notas, porto-me bem, não me meto em sarilhos e não dou trabalho nenhum – qual é o problema de sair? Não é o que tu fazes o ano todo?
- Isso não te dá o direito..
- O que não te dá direito é estares completamente nas tintas para mim e depois chegas aqui como se fosses rainha, eu não quero saber se tu achas as coisas adequadas ou não, a tua porcaria de opinião pouco me importa!
Nem entendo que estou a gritar, nem entendo que me descontrolo, nem entendo que já estou com lágrimas grossas a escorrer-me pela cara.
A minha mãe está calma, muito calada e branca, muito branca.
- Lua, eu…
- Esquece, não quero saber! Queres saber o que tenho feito? Tenho estado com um amigo. Problemas? Não te preocupes, ao contrário de ti, ele sabe cuidar de mim!
Viro-lhe as costas, não quero saber de mais nada. Abro a porta de tal forma que ela quase que sai dos gonzos. 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O mar é fiel 10*

Felicidade, é o que melhor me descreve neste momento. Enquanto nadamos juntos. Vimos à tona, respiramos e voltamos para debaixo de água. Ele agarra-me e eu agarro-o. Bem junto a mim. Que estás a fazer? Ele é um desconhecido! E no entanto, sinto que o conheço. Sinto que o conheço à anos. Aquele estranho, seja lá quem for, faz a minha pele arder, mesmo naquela água gelada, e ao mesmo tempo ter arrepios pelo corpo todo.
- Que achas de sairmos um pouco de dentro de água?
Desde que estejamos juntos, é-me igual.
- Sim, pode ser.
Ele sorri e eu sorrio ainda mais. Senta-mo-nos na areia, mas não muito próximos. Sinto as palavras na minha garganta, tenho de as dizer. Vá, estúpida, pede desculpa. Mas e se ele não desculpar? Mas estás parva? Viste bem como ele está contigo? Sim, mas.. Pede-lhe desculpa duma vez e
arruma o assunto!
- Frederico? – sabe tão bem dizer o nome dele.
- Sim, Lua? – sabe ainda melhor ouvi-lo dizer o meu nome.
- Desculpa.
Ele olha-me, sem entender. A sério que já esqueceu?
- Por ontem. Desculpa ter reagido daquela maneira. Desculpa ter-te falado naqueles modos. Não merecias, fui parva, desculpa, a sério. Tu ajudaste-me, com tanta paciência e eu perdi as estribeiras daquela forma, não o devia ter feito, desculpa
- Hey, calma.
Ele aproxima-se de mim e percebo que falei com a voz cheia de culpa, de desespero, de medo que ele não perdoe, atropelando as palavras umas nas outras.
- Por favor, desculpa, a sério - respiro fundo e noto que tenho água nos olhos. Parva, não chores!
- Não faz mal, a sério. Eu entendo.
- Entendes? – Olho-o bem nos olhos e olho bem nos meus.
- Sim, entendo. O medo de alguém só querer saber de nós porque temos dinheiro. Porque somos ricos. Eu sei o que isso é?
Ele já se afastou de novo.
- Como… como é que entendes?
- Porque eu já passei por isso – a sua voz está desprovida de calor. Está fria, mais fria do que aquele ar. Fico calada, até ele continuar. Será que vai confiar o suficiente em mim para me contar aquilo?
Passado um bocado, ele fá-lo.
- Quando era mais novo, era rico. Podre de rico mesmo. Eu podia comprar o que quisesse quando quisesse. Os meus pais... Eles eram do mais snobe que há. As pessoas eram minhas amigas pelo dinheiro. Ninguém entendia que eu não queria aquilo, que eu não queria ser rico, que eu não pertencia aquele mundo. Eu tinha tudo mas não tinha nada, entendes? Ninguém me queria ouvir, ninguém me queria feliz, ninguém queria o meu bem-estar.
Isto ataca-me o coração. Por completo. Se ele soubesse como o entendo, se ele soubesse isso.
Vejo que ele se está a tentar acalmar. Tem lágrimas nos olhos. Não quer dar parte fraca. Ele não é fraco!
- Então fugi - continua - Tinha 15 anos na altura. Ninguém me procurou. Acho que os meus pais devem ter inventado uma mentira qualquer, não sei. Eles sempre ligaram mais às aparências do que a outra coisa qualquer. Comecei a minha vida noutro lado. Nunca fui de muitas despesas. Trabalhava a tempo inteiro num bar ao pé da praia, no verão. Fiquei em casa de um amigo meu, que conheci nas férias. A mãe dele aceitou fazer de minha encarregada de educação. Durante o ano-lectivo, tinha um part-time. Não ganhava muito, mas era o suficiente para mim. Quando fiz 18 anos, vim para aqui. Trabalho como nadador-salvador no verão e de no resto do ano, faço um pouco de tudo. Nunca mais fiz amigos, desde que para aqui vim. Até ontem, acho eu. 
Olha-me bem nos olhos. Sei que é verdade. O que ele me contou. Eu sei que sim. Como sabes? Vais confiar nele? Ele é um estranho. Não, não é. 
Aproximo-me delem, que já está com grossas lágrimas a caírem lhe no rosto. Sento-me ao seu lado e toco-lhe na face
- Eu estou aqui. Entendes? Eu percebo-te tão bem, eu sei o que é estar sozinha. Mas tu não estás sozinho. Não mais. Eu prometo. 
- Porquê? Tu não me conheces, como sabes que disse a verdade?
Não respondo, limito-me a encolher os ombros e a abraçá-lo.